Três Estações da Lisboa Hermética:
O Retrato da Cidade; Eu
na Caixa e o Outro Inventado
|UM|
[...] Lisboa acorda a
ensaiar o voo das andorinhas, o gato aconchegado no sofá espreguiça e corre
para espreitar pela greta do cadeado da maleta se a Ponte 25 de Abril conserva
aquela frescura de fios de cabelo fechando o rio numa lagoa, pronta para ser subalugada
ao inquilino elefante que usa orelhas como barbatanas. É este o elefante que
limpa os pires e as esterinas anglo-saxónica nos restaurantes do Chiado; amigo
inseparável que Fernando Pessoa tira do bolso do paletó todas as terças-feiras
de Abril para o emprestar aos fadistas, que no alto do ramo ditam as
confidências da Rua do Carmo: a sombra desnuda dos namorados a lambuzar casca
de fruta na pele. A sentinela no cimo do Elevador da Justa é a desenhadora de
cartazes de dançarinos folclóricos em exibição na antecâmara do Teatro da
Trindade. Aplausos de sapos no fundo da garrafa; as estátuas que tiram o pé do
chão para afiar os atacadores dos sapatos batendo com a cabeça na relva são
heróis insossos nas guerras em que Portugal era cesto de pão reflectido armistício
no espelho. A menina Maria Helena já pode abrir a pálpebra e aceitar a luz
líquida das Águas Livres; alcançar a varanda pedir o pão-nosso de cada dia pela injecção da morfina na seringa; penhorar
a escada e subir ao quinquagésimo primeiro andar e resgatar os anões da Branca
de Neve da gaiola, enquanto o radiologista do tráfico rodoviário dita os erros
ortográficos da cartografia da cidade aos varredores da rua. Falta um degrau
abaixo do nível do Mar de Carcavelos para que o diafragma capte a baleia
submergindo com ajuda duma colher de chá no aquário. Bom dia, senhor Herculano!
É notícia nos semanários que os gatos-pingados retiraram-se das rampas dos
parques de automóveis e dos telhados à beira do rio — territórios onde os
tigres acasalam ovos de perdizes com os marinheiros do Cais de Sodré. Na
surdina, nos canteiros da Praça da Alegria, os Erasmus enrolam com os grilos nas
unhas da Graça-nocturna. E por cima do ombro do Bairro Alto — originalmente
feito a lápis de carvão — a sair da janela, o sono é impensável sem que o sal
da electricidade sintonize: o sofá espatifado, o gato preto, o sonho e o poeta.
Este sonho ridículo, o gato enganado no sofá e o poeta a beber o fumo de cigarro
no escritório da advogacia; são naturalmente a Cidade de Lisboa no Outono de
1910 a inclinar-se [o navio] até a borda para chegar à água. Da rua Augusta à
Praça de Comércio, os amantes limpam a correias
das bicicletas, laçam cores quentes do arco-íris na gola da camisa e duas doses
de doces caseiros nos lábios [...]