Um Presente de Natal
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22/12/13
16/09/13
Tese
sobre a lucidez
Tenho
estado sóbrio
até ao
último gole de uísque
Agora
tento sincronizar
a
ginástica acrobática
dos
meus passos desarranjados
arrumar
a bagunça da rua
alinhar
as calcetas da estrada
ajeitar
a cidade de Lisboa
e
caminhar para a caverna
juntar
os meus esqueletos embriagados
na
inundação do meu espaço côncavo
ao
dobrar a esquina
[…Bairro Alto concupiscente,
no alto mês de Outubro
outro poema]
examino
os pontos cardeais memorizados
os
itinerários esquecidos
para
acertar nos passos.
12/09/13
Entreposto de uma alma impura
Vejo uma cruz cinzenta ao pé da encosta que me viu nascer
Com meu nome escrito por extenso
Encho minha pele de verrugas
Cuspo no chão que me negou a sorte.
Menosprezo meu ventre que tão bem me acolheu
Parto sem rumo a procura de um norte que me abrigue.
Parto a procura da diferença que me faça, por segundos,
Enternecer meu ventre, entrar no presente
E saborear o sabor do vento.
Parto a procura de uma enchente de ternura
Que não saiba a carinho explícito,
Que não seja adocicado demais
Que não seja do tamanho do meu ego aparente
Que não seja nem meu nem eu.
Parto, estico os braços e por instantes,
De olhos fechados, sinto-me fora de mim,
Toco na minha pequenez, rio de meu próprio reflexo
Reflectido nos tornozelos de minha sombra.
Parto a procura de sensações entusiásticas
Que me façam criar, circunstancialmente, um palco
Onde consiga escolher o repertório inteiro
E seja o mais próximo de um eu
Que nunca terei a certeza que seja o meu.
Parto a procura de sensações
Nos mais pequenos pormenores
Que me saibam dizer, em silêncio,
Onde se esconde a minha sombra.
Que me aponte caminhos,
Que me faça ver pegadas.
Parto e não sei se volto.
Não sei se devo olhar para trás.
Talvez já tenha, no mais recôndito de minha alma, espreitado la para fora
Mas não sei dar conta de que lados se esgueirou,
Sorrateiramente, minha alma nos seus lastros de lucidez.
Olho para a frente e não sei, no instante presente,
Dar sentido e vida ao que vejo.
Tento desesperadamente olhar bem no fundo
Aquilo que presumo ser meu som em nítido desprezo
Para com as luzes que se apontam na minha direcção
A espera de um aceno.
De um toque apenas.
Parto, mas não sei se volto.
Parto apenas. Sempre.
29/05/13
É a menina uma concha
que tem no interior um pão vermelhoe quente que quer ser mordido
a começar já pela água da pele
seios, as nádegas, beijos
gotas de transpiração e uma oásis
de sangue fechada na gaiola
a órfã de dedos uma euforia de flor
preste a explodir a doçura pura da fruta
numa oferenda à canção minúscula
o único paladar do outro corpo
cheio de água e mil fios de cabelos
entre fôlegos despedaçados da harpa.
27/05/13
Meu encontro com África. Parte I
Por
entre as escadarias de minha sombra, encontro-me com os melaços de uma pele
desconhecida. Em metamorfoses sibilantes com as cores quentes de um mundo até então
por mim desconhecido. África. Danço nas rotinas de meu sono, nos tambores da
noite, nos zumbidos dos bichos. Danço ao som de músicas que nunca me chegaram senão
aos vértices e me passaram despercebidas, porque de mim, pensava, nada me
dizerem respeito.
A
arena empoeirada, os pés furados pelo sol, descalços. Olhares mansos,
profundos, catalisados, perfurantes, por vezes medonhos, incógnitos, fizeram-me, em tempos, recuar. Sair de meu trilho.
Hoje
arrasto os sons, em silêncio, no rosnido da noite, por entre meus vértices,
minhas curvas. Trespassam-me. Vão mais fundo.
26/05/13
Que sabores têm a fruta no olhar?
A finta dos gestos e os enganos do sorriso
E a luz lá fora que te suga o ar da boca
é a cortina que esconde-te o quadrado
da saudade planta na pele, sei lá!
É o retrato e a sua língua e os fios de cabelos
o vazio em círculo a magica da mesma fruta nos olhos
os ângulos estas coisas feitas para te espiar
e hoje quero estar ao lado do mel do espelho
para ser pacientemente revisto.
A finta dos gestos e os enganos do sorriso
E a luz lá fora que te suga o ar da boca
é a cortina que esconde-te o quadrado
da saudade planta na pele, sei lá!
É o retrato e a sua língua e os fios de cabelos
o vazio em círculo a magica da mesma fruta nos olhos
os ângulos estas coisas feitas para te espiar
e hoje quero estar ao lado do mel do espelho
para ser pacientemente revisto.
25/04/13
"Remar no ângulo reto na incursão"
Remar no
ângulo reto na incursão
da última
pedrada Caçar na bainha da unha
os anéis
de Saturno Sopros apertados no nó do sapato
apodrecem
na caligrafia da expressão da cara
Descolagem
de aviões nos hélices dos ovos
que bebem
o som agudo da máquina de escrever
recados
nos telhados da Lisboa em chama
e a
cidade da Praia arde em papel
enquanto
os insetos dragam a ranhura dos dentes
o sémen
incendeia no olfato
Átomo
seco na fundura do cabelo
faz uma
vírgula e um laço hirto
no menear
dos astros Fica ali longe
fósforo
na posição do farol distante do penteado
das
areias que conservam na escama humana da fauna.
20/03/13
Imigransia
Nun noti kaladu
Na kalseta di mar
Nha gaivota a vapor
Guian nha xintidu
Pa meiu di mundu
Sen kaminhu pensadu
Nha korpu pa dianti
Nha sombra nburdiadu
Ka xinti silensiu
Di bai nha kaminhu
Sakrifisiu di alma
Lapidu na bolsu
Nha boka sustedu
Nun lagua na bentu
Konsolan nha viaji
Ku medu nbrasadu
Nsukuta un strela
Prindadu na seu
Ta kanta poizia
I nseta nha distinu
by Johnny Pina
18/03/13
Sodade, oh mar, oh gente...
Santiago possui várias coordenadas de sonhos, de afectos, de criatividade, de gritos e de silêncio. Tudo no caminhar da vida que cruza vários momentos de construção e de consolidação. A Cidade Velha é o palanque de festa da criação, de momentos em que os corpos dos sexos desnaturados encontram momentos de confrontos. Branco e Preto, e branco na preta, corporizando a hibridação crioula. A dor de sangue, no confronto da urbe, deu lugar criações e desafios para uma nova largada no funco, nas achadas e cutelos. Santiago repartido; nos gritos vagabundos dos badios que no seu ambiente ecológico brindam com protestos e revoltas; e o silêncio maquinal dos senhores brancos orquestram represálias. Santiago cresceu, que nesse ambiente de incógnita fermenta esperança com os mestiços, pretos e brancos, nas nuvens à guarida das caravelas, de saques e sotaques. Na fortaleza, de armas apontadas para outras realezas, no plateau para mirar outras urbes e questionar o mar.
Santiago, de arranjos berrantes, segue a pegada de novos mares e ares. Senhor cavaleiro que monta o tempo, no passeio das nuvens, no seu caminhar demansinho. Orquestra várias trajectorias no céu e depois fala com o São Pedro, o manda chuva de sonhos e de esperança. A chuva cai, e Amilcar Cabral escreve «Mamãe Velha» que Alcione imortaliza. Nas vertentes da ilha, acasos d'agua alimentam esperanças. Romarias de mãos cruzadas, de alfaias que tecem o chão com milhos, feijões, de frutas que o povo desfruta, com prazer. Santiago quando chove é uma ilha no paraíso; é como as revistas de Jeová que idealiza o paraíso. Todos contentes na corrente da abundância e na brejeirice dos badios. Os badios são conhecidos como ingratos que brinca com a abundância; põem nomes à tudo que faz parte da moda. Engraçados os seus sorrisos e conversas em tons graves; sem malícia, tudo na harmonização de uma boa fartura.
Plateau, depois que se torna cidade, na contra-corrente do decante Ribeira Grande, ganha novos corpos e se desliga do todo, malgrado o seu poder administrativo, económico... Simbolicamente, impôs os seus trilhos e regras de jogo. Se desliga das tradições populares, e o povo fica no mercado e no espaço público. Se descontinua nas suas relações sexuais com os brabos das urbes.
Santiago é um senhor gigante, balenti... trovador de sons que consegue traduzir só de ouvidos nas casas de mais poderosos. Mas também criou almas no desconforto, para a harmonização nas comunidades; o batuque, a tabanca, o funana tocados em tons frenéticos exorcizando medos e demónios encapuçados.
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