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16/09/13

Tese sobre a lucidez

Tenho estado sóbrio
até ao último gole de uísque

Agora tento sincronizar
a ginástica acrobática
dos meus passos desarranjados

arrumar a bagunça da rua
alinhar as calcetas da estrada
ajeitar a cidade de Lisboa
e caminhar para a caverna
juntar os meus esqueletos embriagados
na inundação do meu espaço côncavo

ao dobrar a esquina

[…Bairro Alto concupiscente,
 no alto mês de Outubro
outro poema]

examino os pontos cardeais memorizados
os itinerários esquecidos

para acertar nos passos.

29/05/13


É a menina uma concha
que tem no interior um pão vermelho
e quente que quer ser mordido
a começar já pela água da pele
seios, as nádegas, beijos
gotas de transpiração e uma oásis
de sangue fechada na gaiola

 
Escorrega do tacto ainda que arde
a órfã de dedos uma euforia de flor
preste a explodir a doçura pura da fruta
numa oferenda à canção minúscula
o único paladar do outro corpo
cheio de água e mil fios de cabelos
entre fôlegos despedaçados da harpa.

26/05/13

Que sabores têm a fruta no olhar?
A finta dos gestos e os enganos do sorriso
E a luz lá fora que te suga o ar da boca
é a cortina que esconde-te o quadrado
da saudade planta na pele, sei lá!

É o retrato e a sua língua e os fios de cabelos
o vazio em círculo a magica da mesma fruta nos olhos
os ângulos estas coisas feitas para te espiar
e hoje quero estar  ao lado do mel do espelho
para ser pacientemente revisto.

25/04/13

"Remar no ângulo reto na incursão"



Remar no ângulo reto na incursão
da última pedrada Caçar na bainha da unha
os anéis de Saturno Sopros apertados no nó do sapato
apodrecem na caligrafia da expressão da cara

Descolagem de aviões nos hélices dos ovos
que bebem o som agudo da máquina de escrever
recados nos telhados da Lisboa em chama
e a cidade da Praia arde em papel
enquanto os insetos dragam a ranhura dos dentes
o sémen incendeia no olfato

Átomo seco na fundura do cabelo
faz uma vírgula e um laço hirto
no menear dos astros Fica ali longe
fósforo na posição do farol distante do penteado
das areias que conservam na escama humana da fauna.

11/02/13


Três Estações da Lisboa Hermética:
                                                                                                                 O Retrato da Cidade; Eu na Caixa e o Outro Inventado





|UM|

Entra o navio mudo pela ranhura da foz do Tejo indefinido e espaçoso na minúscula retina ao se abrir a persiana para a fora do Universo rectangular. E o silêncio madrugador é um arfar cansado e aquoso do cavalo lusitano a jorrar nas escadarias de Alfama. Um comboio enferrujado pelos seus cem anos de corredura desagua a trote no Rossio para se esconder do frio de janeiro na pelugem do gato. Os borrões nos alcatrões são marcas traçadas a giz, onde, estão guardados os botões dos cochichos do Mercado da Ribeira. Todos os recados arcaicos da Moraria trancafiados nos estojos de costura; no umbral da porta, as idosas a envelhecem com os estuques em ruínas nas paredes das casas da Baixa Pombalina. Num exercício de memória a velhota prega com a mola de roupa as fotografias [a preto e branco] na corda do estendal que puxa o Elevador da Bica para a mesa da cozinha. O Navio continua entrando mudo pelo rio, sem explicar este gesto convencional nos exames sociais do mundo; dois milhões de telespectadores arrastam nas pedaladas da máquina de costura este animal de aço para o canto miudinho da sala de visita; perde-se o rebanho na Estação de Metro de Saldanha e os guardadores de gado jogam pedra na sorte pontiaguda de acertarem nas fontes rasas das árvores do Jardim do Príncipe Real. E naturalmente, já se viu que o Tejo é um rio manso e adequado para lavar o rosto do estrangeiro-pastor carregada as cavalitas na porta-bagagem do taxista. O puto reguila esfrega a ponta dos dedos no vidro da montra, tarraxa a chuva dos fins-de-semana num frasco transparente — onde tem alojado os insectos fosforescentes num frenesim de bicho cabeceado a tampa do frasco causando mau tempo dentro do recipiente. Alguns gaiatos do bairro do Campolide destruem grades e engenhocas dos edifícios altos — como os aparelhos do ar condicionado do Hotel Sheraton e das Torres de Sete Rios. Para no final da tarde acharem mais piada arremessar objectos cortantes aos aviões, de modo, a desmancha-las as asas de cartolina coladas com cola branca. Lisboa acorda a ensaiar o voo das andorinhas, o gato aconchegado no sofá espreguiça e corre para espreitar pela greta do cadeado da maleta se a Ponte 25 de Abril conserva aquela frescura de fios de cabelo fechando o rio numa lagoa, pronta para ser subalugada ao inquilino elefante que usa orelhas como barbatanas.[…]

30/01/13



Cata-ventos calçados pontapeiam os ossos urbanos
as pontes árticas nas veias de água (ou coisa assim)

A placenta do universo e a encubação da Lua
avessas às terapias fêmeas da ternura da ave

Estourar as árvores pelas suas vértebras
Aparafusar os pontos cardeais nas pernas

A aparência dobrada a queima-roupa
no dorsal eloquente da pera rocha em queda livre no nulo

A bruma versátil entranhada
no vazio absorvente das trincheiras      
adoçadas no desabotoar incidente do oceano
na saliva dos bichos de martelos

A reação química dos aborígenes à curvatura do arco
Dados lançados e tocam-se as flautas sis sisos da poesia.   



Lisboa, Portugal

21/01/13


Com o círculo e ciência
podemos dobrar as asas
para que o mar  voe
e com a outra mão desenhar
com lápis o silêncio

Traçar no papel
a alegria as praias de banho
entupidas de esqueletos

Secreto o menino cresce
um pouco dentro de tudo
na companhia por vezes das moscas
e no fogo que partilha

O vazio do jardim dói
pela multiplicação do pão
– o pão transparente, obeso
em comparação com os instrumentos
músicas mais para o fôlego
do que para a respiração.


Lisboa, Portugal

13/01/13

Metáfora Definição do Batuque 

Entre as muitas mulheres que improvisam almofadas fofas para as pulgas das crianças traquinas; nha Nácia Gome (sem usar o compasso, esquadra e régua) é quem melhor deu espessura à cadência e concavidade da composição musical do batuque. Esta música arrepia o sono e coito interrompido das badias do Oráculo. Pergunte ao meu cão de guarda tisnado na pelugem pela nódoa das bananeiras — que espreguiça no regaço que a minha mãe aquece para me acariciar — para comprovarem a verdade de que o gato [com a sua antena de insecto] dança batuque e tem a mania esdrúxula de que consegue alcançar num disparo a cabeça no primeiro som da batucada. Nunca se conseguiu esta façanha de ouriço-do-mar, de respirar com a cabeça dentro duma tina de água, mas diga-se de passagem: em todo o interior da ilha de Santiago a imagem preto e branco de Cabo Verde engrossa todas as pedras para dar lugar às algas. A terra-mãe obriga ser lavrada nos repisados passos da txhabeta[1], o rebolar do quadril da menina-moça no semicírculo erótico — da gema do cio e do acasalamento — é o primeiro lugar do mundo onde se perde parte da inocência. No terreiro a exibição e as nádegas obedecem o ritmo compassado e frenético das batucadeiras; a mão-cheia que distribuía  doces de coco aos filhos, é que faz repercutir um eco açucarado numa repercussão instrumental que sobe litros de sangue à cabeça do cavalo. Acredite que toda a mudjer di fora[2] tem a sonância verbal do mar na garganta, e é habitualmente obcecada pelo cântico dos grilos e o crepitar do Sol plástico na sementeira — ofício da enxada no fogo que partilhamos no almoço.         



[1] Passos frenéticos e compassados de dança 
[2] Mulheres de meio rural ou do campo

02/01/13

Três Estações da Lisboa Hermética:
O Retrato da Cidade; Eu na Caixa e o Outro Inventado


|UM|

 […] A menina Maria Helena já pode abrir a pálpebra e aceitar a luz líquida das Águas Livres; alcançar a varanda e pedir o pão-nosso de cada dia pela injecção da morfina na seringa; penhorar a escada e subir ao quinquagésimo primeiro andar e resgatar os anões da Branca de Neve da gaiola, enquanto o radiologista do tráfico rodoviário dita os erros ortográficos da cartografia da cidade aos varredores de rua. Falta um degrau abaixo do nível do Mar de Carcavelos para que o diafragma capte a baleia submergindo com ajuda duma colher de chá no aquário. Bom dia, senhor Herculano! É notícia nos semanários que os gatos-pingados retiraram-se das rampas dos parques de automóveis e dos telhados à beira do rio — territórios onde os tigres acasalam ovos de perdizes com os marinheiros do Cais de Sodré. Na surdina, nos canteiros da Praça da Alegria, os Erasmus enrolam com os grilos nas unhas da Graça-nocturna. E por cima do ombro do Bairro Alto — originalmente feito a lápis de carvão — a sair da janela, o sono é impensável sem que o sal da electricidade sintonize: o sofá espatifado, o gato preto, o sonho e o poeta. Este sonho ridículo, o gato enganado no sofá e o poeta a beber o fumo de cigarro no escritório da advogacia; são naturalmente a Cidade de Lisboa no Outono de 1910 a inclinar-se [o navio] até a borda para chegar à água. Da rua Augusta à Praça de Comércio, os amantes limpam a correias das bicicletas, laçam cores quentes do arco-íris na gola da camisa e duas doses de doces caseiros nos lábios. No Beco da Amorosa a moça de vestido vermelho usa a língua para acender a vela e transforma as árvores em animal de corrida, carregando no dorso as paixões cinematográficas. Relinchos de éguas no relógio de parede; pontapés atléticos do feto a forçar para sair do estuque podre dos soalhos e Lisboa pulsando com a circulação dos eléctricos a queimar nas veias. A camioneta setecentos e cinquenta e cinco pára a meia distância da Primavera na estação dos cabo-verdianos, com o polegar sustendo os nós cegos da Ponte Vasco da Gama para que não desamarrassem com a queda eminente de chuva no guarda-roupa. Um rasto de pó de estrada esvoaça atrás do navio que devagar enfia-se na barra; e com isto: o estranho cicatriza ao acender do cigarro; ajeita a gabardine e esgota no primeiro bafo de fumo. O forasteiro de cigarro e gabardine, não é lisboeta nem estrangeiro — lúcido louco é a alma de um cão vadio; o cronista das avarias técnicas dos operários dos telecentros farejando pastéis de nata nas arruelas de São Bento. Vagueando pela Santa Apolónia com um chapéu esburacado e a sorrir para o Hércules sisudo que sumiu com a invasão napoleónica dos gafanhotos do império egípcio decorria o século dezanove. Lisboa toma forma de um copo com água: a menina com a cabeça nos joelhos, ao tocar os lábios no rebordo da chávena pressente a vibração dos transeuntes duma ponta a outra de Martim Moniz — e a gota de água é o mundo agarrado à roldana a encerrar a encenação quotidiana ao desligar a televisão. Um cão brinca ali longe na esquina com as folhas secas evoca de quando a gente o tem na mão; a bailarina em movimento de peixe carregado nos ombros os guardadores de rebanho e a fluvial entrada do Tejo pela greta da porta a mastigar o próprio rio pela orelha. Zapping ininterrupto de citadinos: dando comida japonesa aos pombos; cortando maçãs ao meio para dar partida aos que correm atrasados para os transportes públicos; a limpar bancos da praça com o frio dos mendigos a urinar para o chão num gesto de marcação da comarca; a descerem do autocarro sem tirar o olho do navio e a acariciarem os candeeiros com os fósforos do Verão que trazem os turistas para sétimo piso da colina do Castelo de São Jorge. No cronoscópio dos sóis as pequenas transparências da água na tigela a diluírem os itinerários dos pássaros que amadurecem nas árvores das alamedas. […]  

24/12/12


Elogio À distância e Às memórias
[Dois. Do Algarismo Romano]
  
Correção da largada: um ponto no i grande e outro no travessão da barra que apoia a armação da chuva. Um grito de partida transformado num animal atormentado escorre, indo de encontrão contra o isolamento da ilha Santiago, respirado pela humanidade, que explode ao entrar em contacto com o pulo do cordeiro [de Deus que tira o pecado do Mundo] da ponte velha para o vidro da água da praia da Gamboa. Quando definitivamente decidimos acelerar o relógio de corda: o fragmento da ilha tinha o globo terrestre prestes a rebentar na pupila e a fome muito rente ao chão da viagem. Gingava com o chão seco da sementeira — a pedir morfina nos ossos — dói-lhe a poeira que o rebanho pasta no som da rebentação das ondas e na mão vazia de barcos. Só de pensar no trajeto que é dobrar os mares numa colher que é levada a boca, inclina de cabeça invertendo para a fundura da queda [Há quem caia inteiro no buraco dos botões da camisa]. No lugar do mundo, o fragmento vulcânico de ilha põe ovos de pátria, na tentação de semear o local de nascença. Passa a escavar toda a terra redonda com as unhas de garfo; enquanto os navios a vapor apertavam-se nas artérias do pássaro que transporta consigo num frasco de vidro. De cada vez que se aproxima do nada — enchendo a cabeça da formiga, com terra fértil do deserto da furtaria — desata a dar nó cego no atacador do sapato. A infinita circunstância de ter sempre o Sol a espia-lo para dentro do crânio, afugentando os seus demónios ao bramir dos gados — rituais domésticos orquestrados, gestos repentinos de camponeses dando linha à pesca dos arbustos e de um pouco de lume de panela na bombagem do combustível do motor avariado.

20/12/12


Elogio À distância e Às memórias
[Um. Do Algarismo Romano]

Sem inversões de marcha, o cardume cabo-verdiano ainda na aba do chapéu [esta angústia de repartir o pão com a navalha] tinha na boca o remendo da viagem: de chegar de improviso, trôpego e com a sede aguda das águas claras da ilha de Santiago na língua. A Cidade Velha com os seus Hunos guerreiros espraiados nas pulgas dos gatos inventara a tecnologia de como beber a frescura lírica da Lua. Outrora íamos de relampejo pregar partidas no transbordo dos navios transatlânticos nos senis recados dos curandeiros — e pouco saíamos da órbita para não desarrumamos o Universo — que Mindelo soube imitar. Teleguiávamos as coisas que subiam aos juncos dos céus: como os papagaios na transportação da chuva e os sóis siameses agarrados na cintura da fruta ou engrampados no voo das aves — a migração dos crustáceos. Caminhávamos à procura do pão da linguagem na embocadura do porto, contrabandeamos retratos insolvíveis nas paragens onde íamos semeando as plantações genealógicas da seca. A nossa sina é colar vírgulas em todos os nomes esdrúxulos nas estações do comboio e acentuações tónicas no cais dos continentes noturnos no desembarque dos camponeses. A trajetória moída para ser a língua do sal ou azul uniforme da Europa metropolitana no útero embrionário e marítimo que dá vida à Veneza das alucinações ― donde se julga virem todas as espécies in-vitro da experiência divina; ou ainda, da primeira América marcada com um xis num erro de cálculo na fabricação de impérios. Nenhum Cabo Verde por engano, que não seja tão-somente a demora longínqua do Cais Velho da Alfândega da Gamboa ao sacudir o arquipélago nos chifres das cabras. Elaboramos o abismo — a asa que queima a borboleta — por termos o chão efémero da aragem guardado entre as areias da praia de São Francisco e o fim do mundo. Evitamos a água da África, presumindo que toda a aritmética do azar faz-se no derrube convencional do Pico de Antónia fresco na sua escama de animal aquático.  

17/12/12

"Lisboa poetisa fundida na Grécia da porta"

 
Lisboa poetisa fundida na Grécia da porta
Uma criança debruça-se no bago da fruta
e mama as indumentarias doces do Tejo
O outro menino desce das lâmpadas
para ter outra roupa avessa na infância
nó apertado de fôlego vivo na chuva

Caí brusco das mãos da areia acesa no voo
para dentro do caroço lúcido da metrópole
distante a cidade da Praia árvore embutida
de cabeça para baixo num copo com água
Relincha os bárbaros da eletricidade do sal
as piruetas pornográficas do vinho poligâmico. 

11/12/12

A Infância dos Bichos

Um frenesim de formigas vermelhas vieram salgar a língua na copa das árvores, as mães se dispuseram a partilhar as refeições com os os insectos do domicílio. Foi assim durante muitos anos no Liceu Domingos Ramos – o Copérnico [o bicho-carpinteiro que foi bisbilhotar a roupa interior do Sol e apanhou um susto de morte] não tinha a mínima noção de como circular e lamber os rebuçados dos olhos das fêmeas dos cavalos. Era no farol do Seminário S. José (ainda ontem lembrava-me o meu amigo), que as moças namoravam pela primeira vez, tinha mais graça se assim fosse, por que íamos pondo um pouco de veneno na boca do Deus-rei. O que era moda nas noites de lua cheia, nos idos anos oitenta, era forrar a capa dos cadernos quadriculados com os jornais, esconder os fantasmas nos estojos das meninas e o enterrar das moedas debaixo das pedras. A beleza estava em avistar as camisas amarelas das crianças da Ilha do Fogo no cimo do Monte Preto, no nosso quartel infantil sobravam sentinelas para vigiar os peixes no tanque.

04/12/12

Cognome, Heterónimo do Vândalo

A minha invenção é um erro
anacrónico de Deus esgotado
numa espécie de bruma seca
Na minha vida passa qualquer coisa
que seja densamente intransponível

Eu próprio: este operário de pedra vulcânica
de instalação neurótica avariada
sem qualquer ânimo respiratório
Um organismo mecânico de pedra polida
protótipo fotossintético pelos sinais do destino
Um pedregulho excêntrico
mergulhado de cabeça para baixo

Há muito que não me revia neste relance
pouquíssimas vezes inclino-me
para perscrutar a crepitação do meu cadáver
obsoleto, só para facilitar a vida.

Lisboa, Portugal

02/12/12

"Modos submarinos de respirar árvores" 

Modos submarinos de respirar árvores
os telespectadores que me acompanham
− textos e imagens –

Noutro parágrafo em vidro
o mar precoce e sem fôlego num pedaço de pão
suspenso na corda e no útero duma galáxia  
− ruídos e vícios –

A pornografia lírica da Lua nos brincos da moça
o maxilar do violão morde a planta do seio
− Diabo e sexo –

Trancamos o pássaro nas duas mãos
soltamos os relógios a algazarra dos dedos.  

Lisboa, Portugal

22/11/12


"Do bairro corcunda toscas marcas corpulentas"

Do bairro corcunda toscas marcas corpulentas
das águas – astros embebidos numa colher de chá
e da dura luminosidade da rua
passa a memória e passa tangente à planície
dos corpos maiúsculos Enquanto isto, o oceano
esmigalha no campo de futebol o diário frio do dinossauro
abatido à queima-roupa no espelho

Farejo a criança que cresce na crina dos galos
e os animais domésticos A infância areia no verdugo da porta
onde plantamos as fotografias e a inocência do miúdo
corroía no Monte Preto com os dedos de porcelana
ancorados no luar silencioso dos contos noturnos.   


Lisboa, Portugal

18/11/12

Três Estações da Lisboa Hermética:
O Retrato da Cidade; Eu na Caixa e o Outro Inventado

|UM|

[...] Lisboa acorda a ensaiar o voo das andorinhas, o gato aconchegado no sofá espreguiça e corre para espreitar pela greta do cadeado da maleta se a Ponte 25 de Abril conserva aquela frescura de fios de cabelo fechando o rio numa lagoa, pronta para ser subalugada ao inquilino elefante que usa orelhas como barbatanas. É este o elefante que limpa os pires e as esterinas anglo-saxónica nos restaurantes do Chiado; amigo inseparável que Fernando Pessoa tira do bolso do paletó todas as terças-feiras de Abril para o emprestar aos fadistas, que no alto do ramo ditam as confidências da Rua do Carmo: a sombra desnuda dos namorados a lambuzar casca de fruta na pele. A sentinela no cimo do Elevador da Justa é a desenhadora de cartazes de dançarinos folclóricos em exibição na antecâmara do Teatro da Trindade. Aplausos de sapos no fundo da garrafa; as estátuas que tiram o pé do chão para afiar os atacadores dos sapatos batendo com a cabeça na relva são heróis insossos nas guerras em que Portugal era cesto de pão reflectido armistício no espelho. A menina Maria Helena já pode abrir a pálpebra e aceitar a luz líquida das Águas Livres; alcançar a varanda pedir o pão-nosso de cada dia pela injecção da morfina na seringa; penhorar a escada e subir ao quinquagésimo primeiro andar e resgatar os anões da Branca de Neve da gaiola, enquanto o radiologista do tráfico rodoviário dita os erros ortográficos da cartografia da cidade aos varredores da rua. Falta um degrau abaixo do nível do Mar de Carcavelos para que o diafragma capte a baleia submergindo com ajuda duma colher de chá no aquário. Bom dia, senhor Herculano! É notícia nos semanários que os gatos-pingados retiraram-se das rampas dos parques de automóveis e dos telhados à beira do rio — territórios onde os tigres acasalam ovos de perdizes com os marinheiros do Cais de Sodré. Na surdina, nos canteiros da Praça da Alegria, os Erasmus enrolam com os grilos nas unhas da Graça-nocturna. E por cima do ombro do Bairro Alto — originalmente feito a lápis de carvão — a sair da janela, o sono é impensável sem que o sal da electricidade sintonize: o sofá espatifado, o gato preto, o sonho e o poeta. Este sonho ridículo, o gato enganado no sofá e o poeta a beber o fumo de cigarro no escritório da advogacia; são naturalmente a Cidade de Lisboa no Outono de 1910 a inclinar-se [o navio] até a borda para chegar à água. Da rua Augusta à Praça de Comércio, os amantes limpam a correias das bicicletas, laçam cores quentes do arco-íris na gola da camisa e duas doses de doces caseiros nos lábios  [...]

14/11/12

"O apego do silêncio pela criança no baloiço"

O apego do silêncio pela criança no baloiço
faz dormir os pássaros e o fio de cabelo
No sarcófago habita uma multidão em cacos de vidro
a espreitar para a ausência do Deus

Longos caminhos e jardins postos à deriva no dorso do cavalo
e o navio na erupção fria do vulcão cheira a odor de pão cozido
na narina da ave à espera que o barco fermente
a viagem dos seus demónios na asa.

Lisboa, Portugal

11/11/12


 "Ser mil vezes"


Ser mil vezes
uma coisa invisível e acesa:
o farol perdido na algibeira;
o aquário largado na caixa de fósforo
e o Hércules debaixo de uma pedra
escondendo-se do frio da fruta

Cede e tomba
a montanha mais alta do mundo
para o fundo do copo

A voz subterrânea de Fevereiro
ensina os rinocerontes
a voarem rente ao chão da lavoura
deixando vazios os prédios
fixos na planta da cidade. 


Lisboa, Portugal

08/11/12


"Ícaro de bicicleta em voos subterrâneos"

Ícaro de bicicleta em voos subterrâneos
Só acontece fêmea coando o êxtase da uva
na abertura do ânus do alfinete 

Um círculo fechado para os brinquedos
agita os degraus do ponteiro na traqueia

Um cemitério agastado pela palavra
e as frutas que gotejam da torneira
tornam o elefante demasiado obeso para a gaiola 

Porque temos uma ilha descomunal
brilhando nos olhos inquietos da criança.

Lisboa, Portugal