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18/03/13

Sodade, oh mar, oh gente...


Santiago possui várias coordenadas de sonhos, de afectos, de criatividade, de gritos e de silêncio. Tudo no caminhar da vida que cruza vários momentos de construção e de consolidação. A Cidade Velha é o palanque de festa da criação, de momentos em que os corpos dos sexos desnaturados encontram momentos de confrontos. Branco e Preto, e branco na preta, corporizando a hibridação crioula. A dor de sangue, no confronto da urbe, deu lugar criações e desafios para uma nova largada no funco, nas achadas e   cutelos. Santiago repartido; nos gritos vagabundos dos badios que no seu ambiente ecológico brindam com protestos e revoltas; e o silêncio maquinal dos senhores brancos orquestram represálias. Santiago cresceu, que nesse ambiente de incógnita fermenta esperança com os mestiços, pretos e brancos, nas nuvens à guarida das caravelas, de saques e sotaques. Na fortaleza, de armas apontadas para outras realezas, no plateau para mirar outras urbes e questionar o mar. 
Santiago, de arranjos berrantes, segue a pegada de novos mares e ares. Senhor cavaleiro que monta o tempo, no passeio das nuvens, no seu caminhar demansinho. Orquestra várias trajectorias no céu e depois fala com o São Pedro, o manda chuva de sonhos e de esperança. A chuva cai, e Amilcar Cabral escreve «Mamãe Velha» que Alcione imortaliza. Nas vertentes da ilha, acasos d'agua alimentam esperanças. Romarias de mãos cruzadas, de alfaias que tecem o chão com milhos, feijões, de frutas que o povo desfruta, com prazer. Santiago quando chove é uma ilha no paraíso; é como as revistas de Jeová que idealiza o paraíso. Todos contentes na corrente da abundância e na brejeirice dos badios. Os badios são conhecidos como ingratos que brinca com a abundância; põem nomes à tudo que faz parte da moda. Engraçados os seus sorrisos e conversas em tons graves; sem malícia, tudo na harmonização de uma boa fartura. 
Plateau, depois que se torna cidade, na contra-corrente do decante Ribeira Grande, ganha novos corpos e se desliga do todo, malgrado o seu poder administrativo, económico... Simbolicamente, impôs os seus trilhos e regras de jogo. Se desliga das tradições populares, e o povo fica no mercado e no espaço público. Se descontinua nas suas relações sexuais com os brabos das urbes.   
Santiago é um senhor gigante, balenti... trovador de sons que consegue traduzir só de ouvidos nas casas de mais poderosos. Mas também criou almas no desconforto, para a harmonização nas comunidades; o batuque, a tabanca, o funana tocados em tons frenéticos exorcizando medos e demónios encapuçados. 

10/01/13

Mar-blues: sodade, oh mar, oh gente…II



No vulcão cozem os prazeres. A bandeira é tirada para cobrir a boca do vulcão para ninguém testemunhar a cozedura dos corpos. O cavaleiro leva a haste para servir de estrutura do foguete. Sulca montanhas e vales, navega pelas nuvens, proclamando a festa; gritos alegres encontram ouvidos em vários acasos da ilha. Pequenos montes e montanhas convivem aos sons dos pássaros que por lá aportam, sempre sob olhar vigilante do vulcão, o portão identitário. As estrelas cruzam o céu, mergulham nas nuvens timidamente; a lua sopra com lábios carnudos para o queixo do Minó di Mama. Que convencido a alma, vaidoso que ganha coragem com o violino, inventam gestos e gestas de cortês para o alvoroço das senhoras. A Miloca está quieta. Os seus olhos brilham na vertente da lua que o Minduca recolhe com desejo.

A bandeirona também é vagabunda. Deambula pelas ruas numa performance contagiante; os textos, os atores e o público harmonizam-se em verve colectiva numa harmonização horizontal. Todos são convocados. Todos proclamados senhores da festa. Todos transportam e transpiram energia. No rufar do tambor, no toque-toque do pilão e na dança-dança geométrica das senhoras. O Osvaldo manco, quedo no seu canto, faz de sofista qual sofisma! Qual etiquetas, qual quê! O homem canta e encanta; faz comício para as gargalhadas dos presentes. De bokarum, canizadi é só amizade. O vulcão é a música; é o público; é o texto.  Na ilha do Fogo, o tempo está colorido; tons vermelhos, verdes, azuis, de berrantes até cega as almas. Os convivas calcorreiam os espaços, de transeuntes anónimos de sorrisos abertos. Os carros voam com baterias de sons, descem do sopé do vulcão.

Enquanto isso, na greta do mar, os barcos sulcam o oceano. Balanceiam ansiosos para novas paragens. No sotavento, o vento é amarrado no lençol. Ventos acumulados e trabalhados para fazerem de batuques e tambores na ilha de Santiago.

Olha Santiago bem perto, de peito largo no seu cavalo. Bate com brio no cavalo e varre o tempo com prenúncios de bem-vindos. Badias tagarelam no pelourinho, de bocas aguçadas cospem paleio; «freguês, não queres nada», «produto barato e de qualidade». A classe média, nacionais e turistas, declina o convite; a moldura do corpo padronizado reprime qualquer diálogo social. (continua) 

07/01/13

Mar-blues: sodade, oh mar, oh gente…




I.      
       
O mar, para além de ser uma tela gigante, aporta memórias de outros tempos, lugares e sonhos. Traz ainda o sopro sinfónico que atravessa às ancas do tempo, na salutar festa de São João de moças de «rabolas» incandescentes na rosca-rosca com os rapazes da terra. Brios soltos no palavreado regional, no encontrão de sexos na peleja do refeitório pagã. Gestos sortidos e curtidos entram em transe. Mocinhos e mocinhas, de Santo Antão e São Vicente, recriam a tragédia na orgia, no caos de guerra fria. Os corpos se trançam; fermentam-se no pousio do desejo. Os ritmos frenéticos se intensificam em cada rufar do tambor. Trata-se de ritos de passagem. Os corpos disciplinados se indisciplina, quebra a rotina do dia-a-dia. As enxadas encontram a paz nesse dia, já não fere o chão. A brisa do mar sopra de mansinho para as ilhas; esfria os corpos e cristaliza os desejos. A carne é exorcizada com a mudança do tempo. A festa dá lugar ao trabalho. Aos afazeres domésticos. Os desejos da carne são mais secretos. Os corpos dos desejos voam para as suas casas, lugarejos da sua santidade. O sopro do mar, na contra corrente, cruza para outras ilhas. Vai ao Fogo para apagar o vulcão.

A bandeirona também exorciza os maus ares no rufar de tambor. No cotejar sincopados de sons fatigantes, de corpos curvos e trémulos que o grogue fermenta. A brisa do mar traz brio no corpo das ilhas. As várias almas do tempo, no compasso de um caminhar caótico, seguem em transe para vários vales, cutelos e cidades da ilha. O tempo metamorfosea a vida. Sacrifícios dos animais que choram a sua morte, de olhos arregalados que gotejam berros. Facas de golpes e em contragolpes, de corpos caídos no palanque da festa. Os caldeirões fumegantes e cantantes dão azia aos convivas, enquanto esses cheiram e snifam a morfina da fome. Na ilha do Fogo, a romaria começa ordenada com antecedência. Os patronos conspiram os desejos e consumos; arranjam a urbe para o carnaval fora do tempo. Líquidos brotam do vulcão, sacodem as almas no canavial de São Filipe. No sopé do vulcão faz-se os primeiros acordes para uma nova largada. O sentido é cruzar vários pontos das ilhas no salutar momento harmónico de convívios. A bandeira é desenterrada para vencer o céu. Bradar ao céu para dialogar com o sol e a lua. A lua «noba» de corpos de desejos que se hospedam no vulcão. (continua).