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09/01/13

«Alguém me arranje emprego. Bom bom.»

Tantos anos a estudar
para acabar
desempregad[a]
Ou num emprego da treta
mal pago
E receber uma gorjeta
que chamam salário
Não tirei o Curso Superior de Otári[a]
não é falta de empenho
Querem que aperte o
cinto mas nem calças tenho
Ainda o mês vai a meio
já eu 'tou aflit[a]
Oh mãe: fazias-me
era ric[a] em vez de bonit[a].

É sexta-feira

Suei a semana inteira
No bolso não trago um tostão
Alguém me arranje emprego
Bom bom bom bom
Já já já já! [...]

(BOSS AC, à minha maneira)


Idade: irreverente! Desde quando era criança, aprendi com a minha mãe que o livro é um amigo de todas as horas. Do meu pai, recebi a força de acreditar que da vida colhemos os nossos próprios frutos. Ele não era um camponês, nem um filósofo. Era um sonhador realista. Infelizmente, já não estão por cá para me meterem uma CUNHA (que dava-me jeito já já já já). Enfim, como sempre, vou ter que ir à luta (ladeira riba e ladeira baixo). À cata da sorte!

Dizem-me que tenho dois defeitos capitais: língua afiada e pé de sabão. E que isso «não é bom» para mulher. Bom, acho que sei como dar um jeito nisso. E então, agora sim, estou disposta a transformar tais defeitos em virtudes. Sonho à distância de um click: um mundo em casa, uma biblioteca em casa e uma oficina em casa. Isso não é domesticidade, é uma ideia de auto-emprego, mas, «no bolso, não trago um tostão. Os bancos só emprestam a quem não precisa.» Por isso, «alguém me arranje emprego, bom bom bom bom, já já já já!»

22/12/12

Natal do Meu Tempo

Balões no ar, doces na mão, cantigas na boca. Natal das crianças. «Boas Festas»! Era assim que começava o natal lá em casa, sempre com uma semana de antecedência. Meu avô, um velho reformado, trazia o gira-discos para o centro da salinha. Sozinho, todo o tempo do mundo era para o seu Luís Morais. Mamãe-Velha circulava do outro lado da casa, a confeccionar os doces da época. Dias de vinho e bolos. Jarros de sumo à mesa. Primos e primas, do campo e da cidade. E pela vida, conheci outros natais, com flocos de neve e lareira em casa; mas nenhum tanta saudade me traz como o natal do meu tempo.

13/12/12

The Hobbit: An Unexpected Journey

This is my rum! (ING)
Este grogue é meu! (PT)
(Fala de um dos três orcs fedorentos enquanto fazia uma canja.)
 
A trilogia The Hobbit já cá canta! À matar, eis que no meio da primeira parte do longo filme vejo na tela uma expressão que me é familiar: «grogue». Depois de quase três horas, perguntei-me: será que algum crioulo anda no contrabando de «grogu fedi» para os orcs da Terra Média? Ou os tradutores portugueses descobriram a fórmula secreta do grogue de Picos? É coisa para dizer, se a China não tomar cuidado, Cabo Verde dominará o mundo em breve. E nada mau começar pela Terra Média, que está no centro das atenções nesta época natalícia.

O filme começa com algumas cenas de The Lord of the Rings, quando Bilbo decide contar ao Frodo mais um bocado da sua história. Logo, transporta-nos para a magia, a aventura e a fantasia em Terra Média. Entretanto, tal como no livro em que o filme se baseia, The Hobbit conta a história do princípio, desde a saída de Bilbo Baggins do Condado, depois de uma misteriosa visita do feiticeiro Gandalf. A missão desta viagem sem certeza do retorno prende-se com a necessidade de ajudar Thorin e os seus 12 amigos anões (Fili, Kili, Nori, Dori, Bifur, Bofur, Bombur, Gloin, Óin, Ori, Balin e Dwalin) a recuperarem o seu palácio. Pelo caminho, Bilbo rouba o Anel do Poder que estava na posse de Gollum. Depois de enfrentarem vários obstáculos, eis que o filme se acaba quando avistam a Montanha Solitária, no coração de Terra Média, onde o dragão Smaug vigia um palácio cheio de ouro.

30/11/12

Passos Coelho Quer Tcholda

Fotos: Os Suspeitos.
Passos Coelho vai a caminho de Cabo Verde, mais concretamente para a cidade do Mindelo, ilha de São Vicente. Dizem ser qualquer coisa como uma cimeira PT/CV, que já começou a «dar bronca» entre a situação e a oposição. Entretanto, não se sabe bem os contornos de tal re-centrar da parceria económica e empresarial. Num momento em que ambos os países já apresentaram a sua mixórdia truculenta orçamental para 2013, fica-se sem saber se Passos Coelho vai de férias ao país das maravilhas (ups, morabeza) ou vai para dar/sacar mais ideias: duodécimo já canta, cá e lá! Com a diferença que nós os crioulos somos mais criativos, ou seja, o que Passos Coelho ensaia fazer, nós aplicámos na íntegra. Também falta saber o que ele vai lá fazer acompanhado com tantos ministros do seu governo (será que vai também o outro ministro, aliás antigo ministro, para ajudar a «abrir mares»)? Bom, depois do cafuné da Sra. Merkel, parece que Passos Coelho quer tchoda dos crioulos...

19/11/12

Versos para a minha amada

do alto da colina
por entre montes e vales
debaixo deste sol abrasador
no lume da terra vermelha
caminho
passo a passo

deu-me para dizer versos
eu que poeta não sou
apenas sei tocar tua face, minha amada
até teus lábios sorriem
no leito do vale
desta aldeia que não é minha nem tua
por mim, o dia não acabava nunca.

Do outro lado do cais

perfume de moço bonito
nos seus vinte anos
coração livre
sorriso puro corpo perfeito
um anjo caído
do outro lado do cais

coração em ardência
minha mão no ar
um aceno audaz
nesta tardinha ternurenta

teus beijos chegando
meu amor juvenil
contigo, eu vou
até ao fim do mundo.

O Silêncio dos Porta-Retratos

rude.
esse calcorrear
por entre pedras, bostas e pastos.
folhas secas caídas
rastos de velhas malditas
céu pesado
um azedume no ar.
corjas doentias
delírios distantes
gestos suspensos.
vagas palavras
asas de chumbo
cor do negrume
das lembranças de outrora.
brisas brandas
janelas embaçadas
canções no divã
dias em vão
sonhos encalhados
nesse cais sem partidas.

17/11/12

Stória di Mortu

1
Un bes, lá na HAN, Psikatria ku Kasinha ta fikaba pegadu. Nton un gaju ki staba nternadu na Psikatria salta paredi di Kasinha, entra y deta riba kes kama di beton ki ta podu mortu un bes. Banda tres hora madrugada, ki kau staba tudu yan, un serbenti leba maka ku un mortu pa Kasinha. Lá undi ké entra pé pasa mortu pa kama di beton, kel gaju di Psikatria ki staba detadu labanta pergunta-l:
- Gosi éh ómi ó mudjer?
Nton serbenti fuliâ mortu, sai kori ta djata... ma djé fronta... ma mortu djá papiâ.

2
Un bes, lá Txada, tinha un ómi malaaandru, más malandu ómi di mundu. Éh ka ta labantaba pa fazi nada, nem pa kumé. Nton, família kansa kual. Po-l na maka pa ba ntera-l. Às tantas, ess kontra ku un migranti ki ben di Merka, ki pergunta kuzé ki sta pasa kés sa ta bai ntera ómi. Ess fla-l pamodi ómi ka gosta trabadja. Nton migranti ki ben di Merka fla pés spera mé ta da-l dinheru nton. Dipós, kel ómi ki sa ta lebada, stika rostu fla:
- Dinheru? Inda pa-m ba kunpra kumida, pa-m ba kuzinha y inda pa-m ben kumé? Naah, nton sigui nteru!!!

3
Kel bes, na tenpu fomi 47, lá na Sistencia (actual Telecom), guentis só na spera kel gran di midju ta kai ta mori mortu. Nton, tinha un dotor ki ta konfirmaba morti y kabokeru ta ntera. Nun okasion, dotor ka tinha tenpu di djobeba txeu, éh dá un gaju pa mortu. Na hora ntera, gaju mexi korpu fla baixinhu:
- Mi inda N ka mori.
Kabokeru vira pa el fla-l:
- Nhu kala boka! Si dotor fla ma dja nhu mori, dja sta dja. Djo mori inda bu ta papia. Bu sta na troça óké?!


(specialmenti pa Kaká)

15/11/12

Comédia Caboverdiana

Uma vez, entrei numa agência de viagem, daquelas que há no Plateau. Disseram-me quanto custava uma viagem à ilha Brava.
- Kuandu ki-m podi bai?
- Bu ten ki kunpra pasaji gosi, barku ta bai manhan.
- Undi N podi fika? Ka ten ninhun kau baratu?
- Naah, keli gó bô ki ten ki djobi.
- Kuandu ki-m podi volta pa Praia?
- Eh, dona, keli gó N ka sabi. Tantu podi ser na próxima semana ó otu mês.

...Ta dipendi di barku...

12/11/12

Sra. Merkel

Num momento em que toda a gente sabe que a Europa está fedendo nas mãos da Sra. Merkel e companhia, eis que vem à baila aquela futilidade do costume. Claro que, pela Europa fora, muita gente quer esganar a Sra. Merkel, mas, certamente, não porque ela deseja jantar e falar de futebol com o selecionador espanhol, Vicente del Bosque. Oh, que maravilha, ela gosta é de futebol! Então, não sabiam que ela é uma mulher comum que gosta de cozinhar sopa de batata ao som de música clássica. Ah, também gosta de jardinagem. Meu deus, ela é a dama mais poderosa da Europa e do Mundo, então vamos lá futricar sobre a cor da camiseta dela. Que babado, a actual chanceler alemã conservou o apelido Merkel do seu primeiro marido, mesmo depois de ter voltado a se casar. Por que razão ela não usa aliança? Mas, se calhar, tal como a Sra. Thatcher fazia ao seu Denis, a nova dama tem um tempo na agenda para servir religiosamente o tal pequeno-almoço com omeletes ao seu Joachim! E o dia ficou lindo… ainda que seja sem o saco de pão que deveria estar pendurado à porta de casa.

10/11/12

aihaiai, africano sofre!

Jovem, recém-formado em Direito e residente em Lisboa, mais concretamente num desses bairros de caboverdianos.
Há umas semanas que ele passa diariamente, por volta das sete da manhã, pela estação de comboios nas linhas de Sintra.
Anda sempre engravatado e com uma pasta na mão. Já faz tempo que um tuga curioso observa-lhe os passos e, dessa vez, quis meter conversa com ele.
- Por favor, quanto custa um empilhador?
- Sai sai sai da minha frente, fdp...!

08/11/12

O Marido da Vizinha

Ambos são caboverdianos e vivem em Boston. Do andar onde vivem, quase todos os dias ouve-se um ruído constante. Certo dia, estavam juntos num jantar, desses que acontecem por altura do natal em associações disso e daquilo. Então, começaram a discutir à frente de uma amiga comum:
- Olha, amiga, este casamento não vai bem. Ele não me convida para jantar fora, não me manda flores, não me oferece joias, muito menos me dá bombons.
Enfurecido por causa dessa inconfidência da sua esposa, ele virou-se para a amiga e perguntou-lhe:
- Não achas que ela está a ver muitas telenovelas mexicanas?

O Finado da Sogra

Não resisto a contar esta história. Então, corria o ano de 1986, quando a minha bisavó Mariá morreu. Tudo aconteceu em Paris e lá decorreu o tal funeral conforme manda a tradição. Dizem que, dias depois, a sua nora recém-casada com um dos meus tios-avôs jurou ter visto o finado da sogrinha em Somada na casa onde antes vivia. Para apaziguar as águas, o meu tio-avô, que não acreditou no relato da mulher, virou-se para ela e perguntou-lhe: «se a minha mãe morreu em Paris, diga-me afinal quem pagou a passagem dela já morta para vir-te chatear em Cabo Verde?»