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14/01/13

Tóta Barela ku Tótó Monteru (Nhu Anu Nobu)


TÓTÓ – Homi qui kré passa kâ sabi
É cássa ku mudjer tagarela
Ali ‘m cumâ porta sem tchabi
Na dés qui ‘m djunta ku Tóta Barela
Góssi li sim logo lá
Tardi lá Grecha també
Pundi qui bu sai é Tóta qui flá
Tóta stâ sima tchota galé
TÓTA – Kâ tem pâ mudjer mâs injúria
Qui cássa ku homi moquêro
Ali ‘m ku fidjos na penúria
Na dés qui ‘m pari ku Tótó montero
Ora na bar ora na badjo
Ôtro ora lá na fornodja Cunta
Tótó mufino Tótó bandadjo
Tótó stâ sima Qui crúxa munta
TÓTÓ – Si djâ bu kré pâ nu passa piada
Ôbi cussé qui ‘m tem pâm flábo
Bu tene côxa bu stâ cunfiada
Djâ bu squêce modi qui ‘m atchabo
Ku lanciado tracolado
Lenço nha pilota pano brasa
Tóta pobre Tóta mariado
Tóta tâ anda cadidjo tâ basa
TÓTA – mal é duê boca é pâ pâpia
També djâ bu squêce tempo bédjo
Cantu bó era santho tâ câmpia
Inda êl stâm claro cumâ spêdjo
Ku camissona di russinha
Sem calça na caram di corpo
Cabeça piôdjo pé di pulguinha
Tótó ku lama sima um porco
TÓTÓ – Tóta bu tem cara labrada
M’ cássa ku bó bu fassém bu cuêdjo
Bu dexam ku águ na labada
Calça ramangado ti tâ bâ duêdjo
Bu nganam ku cússa di meu
Pâm anda só ku rosto na tchon
Tóta flâm na quêm m’tâ trá tchapéu
Si é na Morgado ô na Patron
TÓTA – Bu kâ conchi côbi bu horta
Pâ modi nunca bu foi labrador
Ês alébi pôco mi ‘mporta
Tótó bu kâ dexam dábu nha flor
Bu sirbim pâ tres fidjo mandioca
Um liton barriga di bosta
Cu ‘m cabritinho pé di soca
Tâ subi porta tâ cai di costa
TÓTÓ – Bu tem razon djâm dábu corda
Bu pôdi flâ tudo sem concêncha
Dá cego luz é misercorda
També é um átu di pachêncha
Si mi era moquêro mufino
Pâ modi Tóta bu córre nha trás
Si djâ bu creba ôtro distino
Djâ temba Tóta ôtro rapaz
TÓTA – Quêl gó é sina tudo mudjer
Pâ mar pâ rotcha pâ céu ô inferno
Nunca nu cúda modi êl tâ ser
Candu nu stâ na nôs inverno
M’ crebo tcheu cumâ nha truz
Bó é só di meu m’ tâ dâ um brinde
Tótó pâ mâs qui nu kré cúscuz
Nu kâ tâ trâ nariz pâ nu fássi binde

Nhu Anu Nobu ( Fulgêncio da Circuncisão Tavares)

11/01/13

Iva Pinhel Évora: A Mãe de Amílcar Cabral

Sabe-se actualmente que Iva Pinhel Évora nasceu talvez no sítio de São Francisco, no concelho da Praia (Santiago), a 31 de Dezembro de 1893. O pai, António Pinhel Évora nasceu na ilha de Santiago, era lavrador e tinha “uma bela caligrafia.” Sua mãe, Maximiana Monteiro da Rocha era igualmente natural da ilha de Santiago, foi lavadeira e não sabia ler nem escrever. Iva foi baptizada na Igreja de Nossa Senhora da Graça, Praia, a 13 de Junho de 1894. Foram padrinhos João F. Pereira de Mello e Mascarenhas (solteiro, caixeiro) e Amália Cândida Nunes d’Aguiar Alfama (casada, proprietária), ambos residentes na cidade da Praia (cf. Almeida, 2004: 4).

Patrick Chabal (1983: 29) havia afirmado que Iva Pinhel Évora “came from a very modest São Tiago family and did not receive any formal schooling at all.” Porém, existem também informações que contrariam tal asserção. Com base nas entrevistas realizadas aos familiares desta protagonista, Julião Soares Sousa (2011: 44) assegurou que, “à semelhança dos restantes irmãos, Iva Pinhel Évora apenas pôde completar a instrução primária.” Para além disso, conforme certificou José Maria Almeida (2004: 4), tal como o seu pai, ela tinha “uma bela caligrafia.” Tendo em atenção que, ao tempo, a maioria da população feminina não tinha facilmente acesso à educação formal e muitas mulheres permaneciam analfabetas ao longo da vida, pode-se perceber que o facto de ser originária de um dado meio geográfico, onde havia um certo número de estabelecimentos de ensino primário, e filha de pai com alguma instrução teria favorecido a sua ida para a escola, ainda que ela não pertencesse aos estratos mais elevados da sociedade.

Em 1922, quando tinha 29 anos de idade, ela emigrou para a Guiné, com o seu primogénito de nove meses (Ivo Carvalho Silva, nascido a 24 de Novembro de 1921) e o seu companheiro (João Carvalho Silva, que seria funcionário das finanças nessa outra colónia). Mal aportaram na Guiné, tal relação chegou ao fim. Ao que se sabe, nesse mesmo ano, Iva Pinhel Évora conheceu Juvenal Cabral, o seu futuro companheiro (Chabal, 1983: 29; Sousa, 2011: 44).

De acordo com o historiador guineense Julião Soares Sousa, existe uma nota administrativa, escrita na véspera do Natal de 1923, revelando que “outra mulher, residente em Bafatá, tinha entrado na vida de Juvenal Cabral, o que certamente justificava as frequentes ausências deste do seu posto de trabalho em Geba.” Tal nota, da autoria do administrador, informava que “essas ausências eram motivadas pela necessidade de fiscalizar o negócio de uma ‘loja em nome de uma mulher’, que com ele vivia naquela cidade, para além de outro ‘estabelecimento semelhante em Geba, mas que se encontrava em nome da sua própria mulher’.” Com efeito, Julião Soares Sousa confirmou, nessa época, a “existência de duas mulheres: uma a viver em Bafatá, que se trataria de Iva Pinhel Évora, e a outra, a ‘própria mulher’, que deveria ser a Ernestina Soares de Andrade, ao tempo residente em Geba com a sua, já nessa altura, numerosa prole.” Também, numa nota enviada à administração, a 23 de Dezembro de 1923, Juvenal dava conta que, “achando-se em férias, seguiria para Bafatá, ‘a fim de preparar uns documentos’ que lhe seriam necessários, pois tencionava ‘mudar de situação’.” Entretanto, passados nove meses, um novo facto de registo prendia-se com o nascimento de Amílcar Cabral, a 12 de Setembro de 1924, filho de Juvenal Cabral e Iva Pinhel Évora (Sousa, 2011: 41 e 49-50).

Tudo indica que, em 1926, após o fim da relação entre Juvenal e Ernestina, este passou a viver maritalmente com a Iva. Ali, em Geba, a 19 de Maio de 1927, nasceram as gémeas Armanda e Arminda. Também, tudo leva a crer que, em 1929, o casal já estava separado, sendo que, nesse ano, registaram e baptizaram os seus filhos, na Praia (Santiago). Nesse ano, Iva residia temporariamente no arquipélago. Porém, aquando da sua viagem à ilha, com intenções de ficar definitivamente, Iva encontrava-se grávida de António da Luz Cabral. No retrato abaixo, estampado no seu Bilhete de Identidade, que foi solicitado a 7 de Abril de 1930, na cidade da Praia, nota-se a figura de uma mulher elegante de vestido, colar grande no peito e cabelo longo e ondulado para trás e com uma risca na lateral esquerda da cabeça (cf. Chabal, 1983: 29-30; Almeida, 2004: 4; Sousa, 2011: 53-57).

Por dificuldades de readaptação, Iva regressou à Guiné, em 1930 ou 1931, “tendo fixado residência em Bissau, mais concretamente no bairro de Chão-de-Papel, onde [...] partilhou a mesma casa com o Juvenal e a sua nova família.” Ali, em precárias condições financeiras, Iva teria ocupado confeccionando coisas caseiras para comercializar no sector informal. Em 1932, Juvenal regressou definitivamente ao arquipélago de Cabo Verde, levando consigo Amílcar, Armanda e Arminda (frutos da sua relação com a Iva), uma vez que, talvez por motivos de saúde maternal e infantil, a sua esposa portuguesa Adelina havia permanecido em Santiago, desde o fim do primeiro trimestre desse ano, com o seu filho primogénito dessa nova relação (Luís Cabral, nascido em 10 de Abril de 1931). Tudo indica que Iva ficou na Guiné, “alegadamente impossibilitada de viajar por ter sido vítima de um roubo, que a obrigou a tentar refazer a sua vida antes de partir.” Mais ou menos um ano depois, em 1933 ou 1934, ela regressou ao arquipélago de Cabo Verde, fixando residência em Ponta Belém (Praia), e reassumindo a tutela dos seus filhos que estavam com o pai deles, no interior da ilha de Santiago (cf. Tomás, 2007: 49; Sousa, 2011: 56-66). Pedro Martins (1995: 173) assegurou que a conquista da custódia dos filhos não teria sido nada fácil: “quando a Dona Iva Pinhel Évora, mãe de Amílcar, ia visitá-lo, assim como aos outros filhos [...], eram criadas dificuldades imensas, e os meus avós tinham que interceder para que ela os pudesse ver. Geralmente, era em casa dos meus avós que a Dona Iva se encontrava com os seus filhos [...]. Amílcar [estava] muito atrasado nos estudos. Ela chorava, e Amílcar consolava-a naquele tom convincente que possuía desde criança: ‘Mãe não chore. Um dia hei-de fazer-te feliz’.”  

Tudo indica ainda que tinha sido, na Praia, que Amílcar iniciou os estudos, seguindo, em 1937, com a mãe e os restantes quatro filhos dela, para a ilha de São Vicente, a fim de frequentar o Liceu Gil Eanes, único que havia no arquipélago. Tal deslocação da Iva e de todos os seus filhos devia-se talvez à falta de familiar que pudesse acolher o seu filho estudante, que havia concluído a instrução primária com distinção (cf. Sousa, 2011: 67-94). Em São Vicente, atendendo às necessidades de subsistência e da educação dos filhos, Iva não se poupou a esforços. Na sua situação de mulher independente e chefe da sua família, teve que se desdobrar em várias ocupações, tendo sido não apenas operária numa fábrica de conserva de peixe, mas também costureira e lavadeira de militares portugueses, que estavam na ilha de São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Em 1944, Amílcar concluiu o liceu, tendo regressado para a Praia, juntamente com a sua mãe e os seus irmãos.

A propósito, na única entrevista que concedeu, pouco antes da sua morte, em 1977, Iva Pinhel Évora deixou um testemunho da dureza dos dias passados: “cansei-me demais na máquina, na tina e no ferro; a trabalhar dia e noite porque não tinha auxílio do pai” (apud Lopes, 2002: 45; cf. Sousa, 2011: 44 e 92). Numa referência acerca do trabalho da sua mãe e da penúria que assolava o arquipélago, Amílcar Cabral (1974: 57) recordaria: “quando eu estava no liceu, a minha mãe [...] empregou-se na fábrica de conserva de peixe, porque a costura não dava nada. E sabem quanto é que ela ganhava por hora? Cinco tostões por hora, e, se houvesse muito peixe, podia trabalhar 8 horas por dia, ganhando 4 pesos (escudos). Mas se o peixe fosse pouco, (era preciso andar muito para chegar à fábrica) trabalhava uma hora e ganhava cinco tostões.” É importante reflectir que, neste apontamento de Amílcar Cabral, nota-se não só o reconhecimento dos sacrifícios de uma operária (e sua mãe), como a sua utilização propagandista contra o sistema colonial. Todavia, Iva pôde contar igualmente com os ordenados do seu “filho mais velho de outra relação, Ivo Carvalho da Silva [...], que havia frequentado ‘a escola de carpintaria e marcenaria’ [...] [e do seu filho Amílcar, que] dava explicações” (Sousa, 2011: 92). Justando todos esses esforços, Iva Pinhel Évora conseguiu garantir o sustento da sua família, num tempo de seca, de crise alimentar e de derradeira decadência do Porto Grande de São Vicente. Entre 1944 e 1945, já instalado na cidade da Praia, Amílcar ocupou-se como ajudante de tipógrafo na Imprensa Nacional. Seguiu para o ensino superior, em Lisboa, em 1945, tendo concluído o curso de Agronomia, em 1952, e fundado o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, nos anos cinquenta.

Ao que se sabe, “mãe e filho viram-se, pela última vez, em 1959” (Lopes, 2002: 45). Amílcar foi assassinado na Guiné-Conacri, a 20 de Janeiro de 1973. Na altura, Iva Pinhel Évora residia em Bissau, tendo deslocado ao país vizinho para o funeral do filho (Tomás, 2007: 284; cf. Ygnatiev, 1975; cf. Castanheira, 1995). Aquando da independência de Cabo Verde (5 de Julho de 1975), ela estava ainda viva. Morreu em Bissau, em Agosto de 1977.

(parte de um texto em construção)
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ALMEIDA, José Maria (2004), “Subsídios para a Biografia de Amílcar Cabral”, in Horizonte (Sexta-feira, 17 de Setembro), pp4.
CABRAL, Juvenal (2002), Memórias e Reflexões. Praia: IBN.
CASTANHEIRA, José Pedro (1995), Quem Mandou Matar Amílcar Cabral. Lisboa: Relógio D’Água.
CHABAL, Patrick (1983), Amílcar Cabral: Revolutionary Leadership and People’s War. London: Cambridge University Press.
LOPES, José Vicente (2002), Cabo Verde: Os Bastidores da Independência. Praia: Spleen.
MARTINS, Pedro (1995), Testemunho de um Combatente. Praia e Mindelo: CCP.
TOMÁS, António (2007), O Fazedor de Utopias: Uma Biografia de Amílcar Cabral. Lisboa: Tinta-da-China.
SOUSA, Julião Soares (2011), Amílcar Cabral: Vida e Morte de um Revolucionário Africano. Lisboa: Nova Vega.

23/12/12

Tacalhe, na hora de bai

Se

Se cada gesto saísse solto
Se cada desejo tivesse corpo
De uma rocha de sol
Se cada lágrima cavasse a alma
E túnel fosse onde coubesse
Se com a força dos meus dedos
Rasgasse o vento […]

Tacalhe













Morreu ontem o poeta e diplomata Alírio Vicente Silva (27-4-1943 – 22-12-2012), que utilizava o nome Tacalhe (anagrama da palavra Calheta, a sua terra natal), para se identificar no mundo literário e fintar a PIDE. Será que é desta que a primeira rua urbanizada da minha terra (que virou cidade) vai ter finalmente um nome? Ui, verdade seja dita: a concorrência é forte! Em todo o caso, o doutor Alírio merece alguma coisa, porque foi um bom rapaz, amigo da sua terra e da sua gente. Aliás, agora que a cultura está na moda, espera-se ao menos que a casa do Sr. Vicente Silva (pai), ainda em pé, seja transformada em alguma coisa como casa da cultura ou biblioteca municipal. Da casa do Sr. Velhinho, com cara de museu da poesia, falaremos em outra hora. Por agora, só um «tchau-tchau» ao doutor Alírio.

13/12/12

The Hobbit: An Unexpected Journey

This is my rum! (ING)
Este grogue é meu! (PT)
(Fala de um dos três orcs fedorentos enquanto fazia uma canja.)
 
A trilogia The Hobbit já cá canta! À matar, eis que no meio da primeira parte do longo filme vejo na tela uma expressão que me é familiar: «grogue». Depois de quase três horas, perguntei-me: será que algum crioulo anda no contrabando de «grogu fedi» para os orcs da Terra Média? Ou os tradutores portugueses descobriram a fórmula secreta do grogue de Picos? É coisa para dizer, se a China não tomar cuidado, Cabo Verde dominará o mundo em breve. E nada mau começar pela Terra Média, que está no centro das atenções nesta época natalícia.

O filme começa com algumas cenas de The Lord of the Rings, quando Bilbo decide contar ao Frodo mais um bocado da sua história. Logo, transporta-nos para a magia, a aventura e a fantasia em Terra Média. Entretanto, tal como no livro em que o filme se baseia, The Hobbit conta a história do princípio, desde a saída de Bilbo Baggins do Condado, depois de uma misteriosa visita do feiticeiro Gandalf. A missão desta viagem sem certeza do retorno prende-se com a necessidade de ajudar Thorin e os seus 12 amigos anões (Fili, Kili, Nori, Dori, Bifur, Bofur, Bombur, Gloin, Óin, Ori, Balin e Dwalin) a recuperarem o seu palácio. Pelo caminho, Bilbo rouba o Anel do Poder que estava na posse de Gollum. Depois de enfrentarem vários obstáculos, eis que o filme se acaba quando avistam a Montanha Solitária, no coração de Terra Média, onde o dragão Smaug vigia um palácio cheio de ouro.

05/12/12

«Memória...» | A História da Intriga Daria um Romance

Quem não conhece a expressão «fládu-flâ» (falado falou)!? Ok, é isso aí! A intriga palaciana é uma coisa antiga em Cabo Verde. Lembram-se que, depois de 1462, toda a casta de gente desembarcou no solo caboverdiano. Fidalgos, criminosos, aventureiros e escravos. Homens e mulheres. Desde aquele tempo remoto, a intriga fez a sua caminhada até aos dias de hoje, das novas tecnologias. A intriga por si só daria um romance, não apenas uma ficção histórica. Basta estar atento à actualidade para se enxergar uma certa modernização do acto de intriga. Da vida quotidiana à alta política, nada passa ao lado da intriga. E, se calhar, a intriga tem a força de fazer as coisas acontecerem: na vida quotidiana, se alguém disser que fulana está grávida, a barriga despontará mais cedo do que tarde; na alta política, um pouco por todo o arquipélago, quantos não vivem da intriga? Este intróito é para partilhar convosco duas notas de um ex-governador de Cabo Verde sobre a intriga:

«A experiência tem mostrado [...] que os homens (sic) [...] de noute se empregão invariavelmente em deboche de jogo [...] e bebidas espirituosas e de dia a intrigar por mil meios differentes, naquelles dias em que se levantão com força para isso; porque naqueles dias em que estão tão debilitados que não podem nem com este trabalho dão parte de doentes e então intrigão deitados. Em Cabo Verde, tive muitas e muitas semanas, em que só estavão promtos eu e hum preto official da Secretaria, porque todos os outros tinhão dado parte de doente, entretanto todos intrigavam incessan-temente.»

«Em política, há ridículos intrigantes, que fazem profissão e vivem d’intrigar por casas particulares e por entre os seus amigos, a fim de com huma impostura da maneira política mais da moda, e que então tem mais venda, se possam introduzir e colher aquelles interesses, que por meios de honra não lhes seria possível [...]; essa espécie de mascateiros hé horrível nas sociedades, e desacredita o systema político a que se encostão, e a que fingem pertencer» (cf. DP).

Quem não vê a actualidade destas passagens?! No livro de Daniel Pereira, há mais passagens que merecem uma leiturazinha nos dias de hoje.

Ps.: Joaquim Pereira Marinho, português, foi governador de Cabo Verde por duas vezes (1835-1836 e 1837-1838), num tempo em que os governadores mal se sentavam na poltrona saiam de lá a voar (por intrigas, claro!).

24/11/12

Their Eyes Were Watching God

«There is no book more important
to me than this one.»
Alice Walker.

Obra-prima de Zora Neale Hurston (1891-1960) e uma das mais importantes obras da literatura americana do século XX, publicada pela primeira vez em 1937, Their Eyes Were Watching God conta uma história de uma mulher negra que embarca numa longa viaja de autodescoberta. Janie Crawford, aos dezasseis anos, é uma jovem desempoeirada obrigada pela sua avó moribunda a casar com Logan Killicks, um homem mais velho e grosseiro, que ela despreza e descarta na primeira oportunidade. Janie decide fugir com Joe Starks, um homem citadino cheio de sonhos e projectos ambiciosos. Juntos seguem para Eatonville. Ali, mal chegam, Joe conquista um lugar no coração do primeiro condado negro em construção, tornando-se o seu primeiro presidente da Câmara Municipal, chefe dos correios, lojista e proprietário de terras. A ambição pelo poder torna frágil a relação deste casal. Com a morte de Joe, Janie liberta-se das convenções matrimoniais. Ignorando as más-línguas de então, ela apaixona e entrega-se de corpo e alma ao amor de um jovem trabalhador de espírito livre muito mais novo do que ela. Tea Cake e Janie protagonizam esta emocionante história de amor e de liberdade no Sul dos EUA, então marcado pelas leis segregacionista e em plena luta pela afirmação das comunidades dominadas e marginalizadas. Através do amor, Janie reencontra a paz interior que tanto procurava. A narrativa dessa história muda da terceira pessoa para uma mistura de primeira e terceira pessoa, desenvolvendo uma trama a partir da experiência das mulheres afro-americanas, jovens e que prezam a sua individualidade contra os apelos moralistas de uma comunidade dominada onde as mulheres são evidentemente as que mais sofrem de todas as discriminações racistas e sexistas. Mas, longe de qualquer vitimização, a história ganha pelo realismo e pelo conhecimento profundo da vivência numa pequena comunidade, longe do asfalto e das luzes das grandes cidades americanas. Tão bela é a história contada que a apresentadora Oprah Winfrey considera que esta é a sua «história de amor favorita de todos os tempos», tendo, por isso, optado por produzir um filme baseado neste romance e escolhendo como actriz principal a bela Halle Berry.


A vida de uma escritora negra nos EUA

Zora, romancista e antropóloga, nasceu a 7 de Janeiro de 1891, em Alabama, tendo vivido em Eatonville, Florida, desde a sua infância. Foi aluna de Franz Boas. Teve uma carreira de altos e baixos, durante mais de trinta anos. Foi contemporânea de grandes escritores afro-americanos entre o período do Harlem Renaissance e o fim da guerra da Correia. Toni Morrison considera que «Zora Neale Hurston é uma das maiores escritoras do nosso tempo.» Contudo, esta escritora foi silenciada depois do início dos anos cinquenta e recuperada só no final dos anos setenta. E tornou-se uma referência da literatura americana e uma pérola da comunidade negra.

Durante a vida dela, ela foi aclamada, teve glamour e uma vida louca, com amores e desamores. Porém, em 1945, vendo para o caso de muitos dos seus colegas negros e pressentindo que também ela iria morrer na miséria, decidiu persuadir W.E.B. Du Bois a comprar um terreno baldio na Florida para criar um cemitério de afro-americanos ilustres, a fim de não serem enterrados numa vala comum. Dizia ela, «temos de assumir essa responsabilidade, para que as suas sepulturas sejam conhecidas e honradas.» À primeira, W.E.B. Du Bois torceu o nariz, mas depois caiu na real e acabou aceitando. Pouco tempo depois, ela morreu e na miséria total, a 28 de Janeiro de1960, aos 69 anos. Teve um funeral miserável, que só não foi pior porque os seus vizinhos organizaram um peditório para custear as despesas mínimas, sem direito a uma pedra tumular. Foi enterrada numa sepultura cuja identificação aconteceu em 1973. Na altura, meados dos anos setenta, a então jovem escritora afro-americana Alice Walker (a autora de The Color Purple) fez uma longa viagem para colocar uma pedra tumular na sepultura de Zora, no cemitério segregacionista Garden of the Heavenly Rest, em Fort Pierce, Florida. Alice Walker encontrou o cemitério abandonado e cercado de cobras e ervas daninhas que lhe chegavam à cintura, numa rua sem saída. Depois, com os parcos recursos que ela tinha, conseguiu comprar uma pedra tumular (não aquela que ela pretendia), mas uma lápide cinzenta e simples, ornamentando com um epitáfio: «Zora Neale Hurston, Um Genio do Sul.» Depois desse gesto de Alice Walker e dela mesmo ter se inspirado no trabalho da escritora morta, Zora Neale Husrton tornou-se uma referência incontornável da literatura americana e feminista.