28/01/13

Espelho meu


Num punhado de vazio acorrentado
A esperança fértil e concomitante
Pingava nas veias daquele coitado
Enquanto fugia pela vida adiante

Vil estrada que animava o cansaço
Em dose de lágrimas amordaçadas
Numa mocidade fria e sem espaço
Repousavam as lamurias esgotadas

Espelho meu, amado espelho meu
Vejo em ti o eu que nunca existiu
Abraçado pelo amor que o esqueceu

Espelho meu, quem é que me mostras?
Sou a presença de quem sempre desistiu
Não há vida, aceitas as minhas apostas?

23/01/13

Diário de um thug



Corria pela rua acima quando a boca bedju fez de mim um espantalho. Não era preciso plantar o milho, nem afugentar o santchu para dar conta do meu espanto e dos gritos ensurdecedores que povoavam o universo do bairro. O grito era imponente, valente. Seguia em vaga de screem que levava a sua irra ao parlamento e palácio do governo. No horizonte, as estrelas cadentes cruzavam num ritmo frenético, riscando as letras da vida, uma nova alma em viagem. Na terra firme, os responsáveis da terra, dormia num eco de silêncio.

A irra da boca bedju fez o meu corpo estremecer. Engoli em seco, o meu coração dançava em batucada de inquietação e de medo; o meu coração não parava de «tuntunar». Algures, naquele momento, a Josefa desatinava aos gritos, choros estridentes que pesam na memória; a sua voz começara a deslizar na onda cartesiana que teve a harmonização nalgumas vizinhanças. A casa da Dona Segunda era o local de romaria. O ambiente era pesado, confuso. Há muito que não se ouvia tamanho prenúncio da desgraça no bairro. O vento trazia a música da desgraça: «Ai Pedrinho, Ai Pedrinho…Ai Pedro». O Pedrinho era a vitima de uma emboscada perpetrada por um grupo de thug; dos seus 47 anos, Pedrinho era o profeta e polícia do bairro. Era ele que se encarregava de levar o alho e a arma de prata para caçar os vampiros do bairro. Qualquer sinal de denúncia, o Pedrinho ou chamava a polícia ou dava curativos nos bandidos. Por ser altruísta levou o «troco» por defender a comunidade.

O seu corpo parecia uma escultura de pirâmide de Egito. Homenzarrão que não condizia com o seu nome; 2 metro de porte, peitudo e de mãos largas, com a cara de Malcom X. Da sua escultura jorrava os fluidos que serpenteavam na planura vermelha de chão ferroso. O vermelho do chão lacrara uma vida perdida.
(...)

21/01/13


Com o círculo e ciência
podemos dobrar as asas
para que o mar  voe
e com a outra mão desenhar
com lápis o silêncio

Traçar no papel
a alegria as praias de banho
entupidas de esqueletos

Secreto o menino cresce
um pouco dentro de tudo
na companhia por vezes das moscas
e no fogo que partilha

O vazio do jardim dói
pela multiplicação do pão
– o pão transparente, obeso
em comparação com os instrumentos
músicas mais para o fôlego
do que para a respiração.


Lisboa, Portugal

19/01/13

Deixa-me tocar-te


















Deixa-me tocar-te,
Deleitar-me nos teus encantos.
Deixa-me embalar ao som das tuas doces cordas musicais
Encontrar-me na tua perdida voz de aura enternecida.

Deixa-me pousar minha cabeça nas tuas mãos
Sentir teus calos a estalar na minha pele
Teu suor a escorrer pela minha face,
Dizendo-me baixinho ao ouvido
Todas as suas histórias
Suas desavenças e reconciliações de vida.

Deixa-me desvendar-te,
Tocar-te nas tuas cordas e compor-te uma canção.
Deixa-me seguir teus passos
Olhar no fundo do teu mar e não me intimidar
Com o barulho das tuas ondas.
Seguir em frente
Mergulhar na tua alma de artista
Entranhar-te nos ossos
Nos lábios
No sangue.
Desenhar tua escultura na minha essência.

Deixa-me ser tu em tudo
Deixa-me copiar-te em tudo
Deixa-me olhar para ti como meu mundo.
Deixa-me fazer de ti minha intimidade
Minha vitória
Minha história.
Deixa-me possuir-te como se já não fosses ti próprio.
Deixa-me ser tu.

18/01/13

É a minha sensação


                           É a minha sensação 

De um pensamento sem sentido,
                a mentira sobre o destino,
                  os meus caminhos se formam.
                      Confuso entre a física e matemática, 
                              procuro compreender a natureza da tua beleza

Na noite, iluminada pela lua
        sem direcção ando pela rua. 
                 Entre cruzamentos e as leis
                           perdido na minha sensação.  

De tudo que eu ouvi
       das palavras magicas que usaste,
              do que as palavras fizeram me sentir,
                               há leis que eu não podia cumprir,
                                     momentos que perdi, as lágrimas caíram.
                                                  É a minha sensação

     No mundo que ando
               o caminho percorrido
                            é a ti, que eu entrego
                                      sem sinal para voltar atrás
                                  
                                            É a minha sensação 

16/01/13

O OUTRO

















As águas que passam deixam uma torrente de ar que me transporta às peregrinações do mundo. Metamorfoses de um corpo único, trilhado pelos sons da vida que carregam os males da alma e também as alegrias, dependendo do olhar com que se vê. Dependendo também do tempo e do espaço.

Piso com estes pés de cal sobre a terra molhada que dissolve este ar impregnado de nós, de pontos em retalhos. Alimento minha alma com este esplendor que me toca as vestes, que me toca a pele e desnudam os sentidos impostos, os padrões recalcados pela vida no côncavo dos meus sentidos.

Saio por instantes deste casulo e consigo ver o outro, consigo ver-me a mim própria. Toco por instantes este corpo único que nos funde e paro no tempo, por instantes, a pensar que não há limites nem pontos finais. Há sim continuação das coisas. Há sim eus vários que desconheço, para além daqueles em que me fixo para analisar o mundo.

De repente vejo que não estou só. Continuo assim o meu percurso, único, mas sem deixar de olhar para além disso.

14/01/13

Tóta Barela ku Tótó Monteru (Nhu Anu Nobu)


TÓTÓ – Homi qui kré passa kâ sabi
É cássa ku mudjer tagarela
Ali ‘m cumâ porta sem tchabi
Na dés qui ‘m djunta ku Tóta Barela
Góssi li sim logo lá
Tardi lá Grecha també
Pundi qui bu sai é Tóta qui flá
Tóta stâ sima tchota galé
TÓTA – Kâ tem pâ mudjer mâs injúria
Qui cássa ku homi moquêro
Ali ‘m ku fidjos na penúria
Na dés qui ‘m pari ku Tótó montero
Ora na bar ora na badjo
Ôtro ora lá na fornodja Cunta
Tótó mufino Tótó bandadjo
Tótó stâ sima Qui crúxa munta
TÓTÓ – Si djâ bu kré pâ nu passa piada
Ôbi cussé qui ‘m tem pâm flábo
Bu tene côxa bu stâ cunfiada
Djâ bu squêce modi qui ‘m atchabo
Ku lanciado tracolado
Lenço nha pilota pano brasa
Tóta pobre Tóta mariado
Tóta tâ anda cadidjo tâ basa
TÓTA – mal é duê boca é pâ pâpia
També djâ bu squêce tempo bédjo
Cantu bó era santho tâ câmpia
Inda êl stâm claro cumâ spêdjo
Ku camissona di russinha
Sem calça na caram di corpo
Cabeça piôdjo pé di pulguinha
Tótó ku lama sima um porco
TÓTÓ – Tóta bu tem cara labrada
M’ cássa ku bó bu fassém bu cuêdjo
Bu dexam ku águ na labada
Calça ramangado ti tâ bâ duêdjo
Bu nganam ku cússa di meu
Pâm anda só ku rosto na tchon
Tóta flâm na quêm m’tâ trá tchapéu
Si é na Morgado ô na Patron
TÓTA – Bu kâ conchi côbi bu horta
Pâ modi nunca bu foi labrador
Ês alébi pôco mi ‘mporta
Tótó bu kâ dexam dábu nha flor
Bu sirbim pâ tres fidjo mandioca
Um liton barriga di bosta
Cu ‘m cabritinho pé di soca
Tâ subi porta tâ cai di costa
TÓTÓ – Bu tem razon djâm dábu corda
Bu pôdi flâ tudo sem concêncha
Dá cego luz é misercorda
També é um átu di pachêncha
Si mi era moquêro mufino
Pâ modi Tóta bu córre nha trás
Si djâ bu creba ôtro distino
Djâ temba Tóta ôtro rapaz
TÓTA – Quêl gó é sina tudo mudjer
Pâ mar pâ rotcha pâ céu ô inferno
Nunca nu cúda modi êl tâ ser
Candu nu stâ na nôs inverno
M’ crebo tcheu cumâ nha truz
Bó é só di meu m’ tâ dâ um brinde
Tótó pâ mâs qui nu kré cúscuz
Nu kâ tâ trâ nariz pâ nu fássi binde

Nhu Anu Nobu ( Fulgêncio da Circuncisão Tavares)

13/01/13

Metáfora Definição do Batuque 

Entre as muitas mulheres que improvisam almofadas fofas para as pulgas das crianças traquinas; nha Nácia Gome (sem usar o compasso, esquadra e régua) é quem melhor deu espessura à cadência e concavidade da composição musical do batuque. Esta música arrepia o sono e coito interrompido das badias do Oráculo. Pergunte ao meu cão de guarda tisnado na pelugem pela nódoa das bananeiras — que espreguiça no regaço que a minha mãe aquece para me acariciar — para comprovarem a verdade de que o gato [com a sua antena de insecto] dança batuque e tem a mania esdrúxula de que consegue alcançar num disparo a cabeça no primeiro som da batucada. Nunca se conseguiu esta façanha de ouriço-do-mar, de respirar com a cabeça dentro duma tina de água, mas diga-se de passagem: em todo o interior da ilha de Santiago a imagem preto e branco de Cabo Verde engrossa todas as pedras para dar lugar às algas. A terra-mãe obriga ser lavrada nos repisados passos da txhabeta[1], o rebolar do quadril da menina-moça no semicírculo erótico — da gema do cio e do acasalamento — é o primeiro lugar do mundo onde se perde parte da inocência. No terreiro a exibição e as nádegas obedecem o ritmo compassado e frenético das batucadeiras; a mão-cheia que distribuía  doces de coco aos filhos, é que faz repercutir um eco açucarado numa repercussão instrumental que sobe litros de sangue à cabeça do cavalo. Acredite que toda a mudjer di fora[2] tem a sonância verbal do mar na garganta, e é habitualmente obcecada pelo cântico dos grilos e o crepitar do Sol plástico na sementeira — ofício da enxada no fogo que partilhamos no almoço.         



[1] Passos frenéticos e compassados de dança 
[2] Mulheres de meio rural ou do campo

Incenso

















Poeiras,
Apenas poeiras.
Poeiras da minha alma,
Que me desafiam e me limitam os sentidos.

Olho para os lados
A procura de beleza,
Pura beleza!
E não vejo nada que me cure da minha sorte.

Poeiras,
Apenas poeiras,
Que emanam do meu olhar
Poluindo o ar.

Levanto-me do chão e olho pró céu
A espera que me acalme
E num grito de dor e desespero
Encontre minha pele nua,
Minha pele escura,
Soluçando minha ausência,
Meu desalento.

Caminho…
Os meus pés descalços
Pisam no chão pedrado pelo calor do sol.
 As pedras que me ferem,
Ferem o meu corpo apenas.
Uma dor menor, muito menor
Do que aquela que sinto e não tem cor.

Viajo ao sabor do vento,
Só, ao sabor do vento
Que me transporta
 Para os segredos da minha existência
E eu tento lá no fundo de mim
Descrever as sensações que me provoca.
E continuo a caminhar
A procura de qualquer coisa
Que me cure deste vazio sem nome.