12/01/13

NHO DJONSINHO


 DJONSINHO

D             Deus quis que mais uma estrela
J              Jamais deixe de brilhar no Céu....  
O            O astro é Nho Djonsinho
N            Neste momento de dor e de perda
S             Sentidas condolências minhas envio
I              Inda que é mais que certo que ele continuará
N            Na obra e na musica deixada
H             Hoje partiu o grande homem de cultura
O            O sonho e a obra permanecerão eternamente!

11/01/13

Iva Pinhel Évora: A Mãe de Amílcar Cabral

Sabe-se actualmente que Iva Pinhel Évora nasceu talvez no sítio de São Francisco, no concelho da Praia (Santiago), a 31 de Dezembro de 1893. O pai, António Pinhel Évora nasceu na ilha de Santiago, era lavrador e tinha “uma bela caligrafia.” Sua mãe, Maximiana Monteiro da Rocha era igualmente natural da ilha de Santiago, foi lavadeira e não sabia ler nem escrever. Iva foi baptizada na Igreja de Nossa Senhora da Graça, Praia, a 13 de Junho de 1894. Foram padrinhos João F. Pereira de Mello e Mascarenhas (solteiro, caixeiro) e Amália Cândida Nunes d’Aguiar Alfama (casada, proprietária), ambos residentes na cidade da Praia (cf. Almeida, 2004: 4).

Patrick Chabal (1983: 29) havia afirmado que Iva Pinhel Évora “came from a very modest São Tiago family and did not receive any formal schooling at all.” Porém, existem também informações que contrariam tal asserção. Com base nas entrevistas realizadas aos familiares desta protagonista, Julião Soares Sousa (2011: 44) assegurou que, “à semelhança dos restantes irmãos, Iva Pinhel Évora apenas pôde completar a instrução primária.” Para além disso, conforme certificou José Maria Almeida (2004: 4), tal como o seu pai, ela tinha “uma bela caligrafia.” Tendo em atenção que, ao tempo, a maioria da população feminina não tinha facilmente acesso à educação formal e muitas mulheres permaneciam analfabetas ao longo da vida, pode-se perceber que o facto de ser originária de um dado meio geográfico, onde havia um certo número de estabelecimentos de ensino primário, e filha de pai com alguma instrução teria favorecido a sua ida para a escola, ainda que ela não pertencesse aos estratos mais elevados da sociedade.

Em 1922, quando tinha 29 anos de idade, ela emigrou para a Guiné, com o seu primogénito de nove meses (Ivo Carvalho Silva, nascido a 24 de Novembro de 1921) e o seu companheiro (João Carvalho Silva, que seria funcionário das finanças nessa outra colónia). Mal aportaram na Guiné, tal relação chegou ao fim. Ao que se sabe, nesse mesmo ano, Iva Pinhel Évora conheceu Juvenal Cabral, o seu futuro companheiro (Chabal, 1983: 29; Sousa, 2011: 44).

De acordo com o historiador guineense Julião Soares Sousa, existe uma nota administrativa, escrita na véspera do Natal de 1923, revelando que “outra mulher, residente em Bafatá, tinha entrado na vida de Juvenal Cabral, o que certamente justificava as frequentes ausências deste do seu posto de trabalho em Geba.” Tal nota, da autoria do administrador, informava que “essas ausências eram motivadas pela necessidade de fiscalizar o negócio de uma ‘loja em nome de uma mulher’, que com ele vivia naquela cidade, para além de outro ‘estabelecimento semelhante em Geba, mas que se encontrava em nome da sua própria mulher’.” Com efeito, Julião Soares Sousa confirmou, nessa época, a “existência de duas mulheres: uma a viver em Bafatá, que se trataria de Iva Pinhel Évora, e a outra, a ‘própria mulher’, que deveria ser a Ernestina Soares de Andrade, ao tempo residente em Geba com a sua, já nessa altura, numerosa prole.” Também, numa nota enviada à administração, a 23 de Dezembro de 1923, Juvenal dava conta que, “achando-se em férias, seguiria para Bafatá, ‘a fim de preparar uns documentos’ que lhe seriam necessários, pois tencionava ‘mudar de situação’.” Entretanto, passados nove meses, um novo facto de registo prendia-se com o nascimento de Amílcar Cabral, a 12 de Setembro de 1924, filho de Juvenal Cabral e Iva Pinhel Évora (Sousa, 2011: 41 e 49-50).

Tudo indica que, em 1926, após o fim da relação entre Juvenal e Ernestina, este passou a viver maritalmente com a Iva. Ali, em Geba, a 19 de Maio de 1927, nasceram as gémeas Armanda e Arminda. Também, tudo leva a crer que, em 1929, o casal já estava separado, sendo que, nesse ano, registaram e baptizaram os seus filhos, na Praia (Santiago). Nesse ano, Iva residia temporariamente no arquipélago. Porém, aquando da sua viagem à ilha, com intenções de ficar definitivamente, Iva encontrava-se grávida de António da Luz Cabral. No retrato abaixo, estampado no seu Bilhete de Identidade, que foi solicitado a 7 de Abril de 1930, na cidade da Praia, nota-se a figura de uma mulher elegante de vestido, colar grande no peito e cabelo longo e ondulado para trás e com uma risca na lateral esquerda da cabeça (cf. Chabal, 1983: 29-30; Almeida, 2004: 4; Sousa, 2011: 53-57).

Por dificuldades de readaptação, Iva regressou à Guiné, em 1930 ou 1931, “tendo fixado residência em Bissau, mais concretamente no bairro de Chão-de-Papel, onde [...] partilhou a mesma casa com o Juvenal e a sua nova família.” Ali, em precárias condições financeiras, Iva teria ocupado confeccionando coisas caseiras para comercializar no sector informal. Em 1932, Juvenal regressou definitivamente ao arquipélago de Cabo Verde, levando consigo Amílcar, Armanda e Arminda (frutos da sua relação com a Iva), uma vez que, talvez por motivos de saúde maternal e infantil, a sua esposa portuguesa Adelina havia permanecido em Santiago, desde o fim do primeiro trimestre desse ano, com o seu filho primogénito dessa nova relação (Luís Cabral, nascido em 10 de Abril de 1931). Tudo indica que Iva ficou na Guiné, “alegadamente impossibilitada de viajar por ter sido vítima de um roubo, que a obrigou a tentar refazer a sua vida antes de partir.” Mais ou menos um ano depois, em 1933 ou 1934, ela regressou ao arquipélago de Cabo Verde, fixando residência em Ponta Belém (Praia), e reassumindo a tutela dos seus filhos que estavam com o pai deles, no interior da ilha de Santiago (cf. Tomás, 2007: 49; Sousa, 2011: 56-66). Pedro Martins (1995: 173) assegurou que a conquista da custódia dos filhos não teria sido nada fácil: “quando a Dona Iva Pinhel Évora, mãe de Amílcar, ia visitá-lo, assim como aos outros filhos [...], eram criadas dificuldades imensas, e os meus avós tinham que interceder para que ela os pudesse ver. Geralmente, era em casa dos meus avós que a Dona Iva se encontrava com os seus filhos [...]. Amílcar [estava] muito atrasado nos estudos. Ela chorava, e Amílcar consolava-a naquele tom convincente que possuía desde criança: ‘Mãe não chore. Um dia hei-de fazer-te feliz’.”  

Tudo indica ainda que tinha sido, na Praia, que Amílcar iniciou os estudos, seguindo, em 1937, com a mãe e os restantes quatro filhos dela, para a ilha de São Vicente, a fim de frequentar o Liceu Gil Eanes, único que havia no arquipélago. Tal deslocação da Iva e de todos os seus filhos devia-se talvez à falta de familiar que pudesse acolher o seu filho estudante, que havia concluído a instrução primária com distinção (cf. Sousa, 2011: 67-94). Em São Vicente, atendendo às necessidades de subsistência e da educação dos filhos, Iva não se poupou a esforços. Na sua situação de mulher independente e chefe da sua família, teve que se desdobrar em várias ocupações, tendo sido não apenas operária numa fábrica de conserva de peixe, mas também costureira e lavadeira de militares portugueses, que estavam na ilha de São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Em 1944, Amílcar concluiu o liceu, tendo regressado para a Praia, juntamente com a sua mãe e os seus irmãos.

A propósito, na única entrevista que concedeu, pouco antes da sua morte, em 1977, Iva Pinhel Évora deixou um testemunho da dureza dos dias passados: “cansei-me demais na máquina, na tina e no ferro; a trabalhar dia e noite porque não tinha auxílio do pai” (apud Lopes, 2002: 45; cf. Sousa, 2011: 44 e 92). Numa referência acerca do trabalho da sua mãe e da penúria que assolava o arquipélago, Amílcar Cabral (1974: 57) recordaria: “quando eu estava no liceu, a minha mãe [...] empregou-se na fábrica de conserva de peixe, porque a costura não dava nada. E sabem quanto é que ela ganhava por hora? Cinco tostões por hora, e, se houvesse muito peixe, podia trabalhar 8 horas por dia, ganhando 4 pesos (escudos). Mas se o peixe fosse pouco, (era preciso andar muito para chegar à fábrica) trabalhava uma hora e ganhava cinco tostões.” É importante reflectir que, neste apontamento de Amílcar Cabral, nota-se não só o reconhecimento dos sacrifícios de uma operária (e sua mãe), como a sua utilização propagandista contra o sistema colonial. Todavia, Iva pôde contar igualmente com os ordenados do seu “filho mais velho de outra relação, Ivo Carvalho da Silva [...], que havia frequentado ‘a escola de carpintaria e marcenaria’ [...] [e do seu filho Amílcar, que] dava explicações” (Sousa, 2011: 92). Justando todos esses esforços, Iva Pinhel Évora conseguiu garantir o sustento da sua família, num tempo de seca, de crise alimentar e de derradeira decadência do Porto Grande de São Vicente. Entre 1944 e 1945, já instalado na cidade da Praia, Amílcar ocupou-se como ajudante de tipógrafo na Imprensa Nacional. Seguiu para o ensino superior, em Lisboa, em 1945, tendo concluído o curso de Agronomia, em 1952, e fundado o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, nos anos cinquenta.

Ao que se sabe, “mãe e filho viram-se, pela última vez, em 1959” (Lopes, 2002: 45). Amílcar foi assassinado na Guiné-Conacri, a 20 de Janeiro de 1973. Na altura, Iva Pinhel Évora residia em Bissau, tendo deslocado ao país vizinho para o funeral do filho (Tomás, 2007: 284; cf. Ygnatiev, 1975; cf. Castanheira, 1995). Aquando da independência de Cabo Verde (5 de Julho de 1975), ela estava ainda viva. Morreu em Bissau, em Agosto de 1977.

(parte de um texto em construção)
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ALMEIDA, José Maria (2004), “Subsídios para a Biografia de Amílcar Cabral”, in Horizonte (Sexta-feira, 17 de Setembro), pp4.
CABRAL, Juvenal (2002), Memórias e Reflexões. Praia: IBN.
CASTANHEIRA, José Pedro (1995), Quem Mandou Matar Amílcar Cabral. Lisboa: Relógio D’Água.
CHABAL, Patrick (1983), Amílcar Cabral: Revolutionary Leadership and People’s War. London: Cambridge University Press.
LOPES, José Vicente (2002), Cabo Verde: Os Bastidores da Independência. Praia: Spleen.
MARTINS, Pedro (1995), Testemunho de um Combatente. Praia e Mindelo: CCP.
TOMÁS, António (2007), O Fazedor de Utopias: Uma Biografia de Amílcar Cabral. Lisboa: Tinta-da-China.
SOUSA, Julião Soares (2011), Amílcar Cabral: Vida e Morte de um Revolucionário Africano. Lisboa: Nova Vega.

10/01/13

Mar-blues: sodade, oh mar, oh gente…II



No vulcão cozem os prazeres. A bandeira é tirada para cobrir a boca do vulcão para ninguém testemunhar a cozedura dos corpos. O cavaleiro leva a haste para servir de estrutura do foguete. Sulca montanhas e vales, navega pelas nuvens, proclamando a festa; gritos alegres encontram ouvidos em vários acasos da ilha. Pequenos montes e montanhas convivem aos sons dos pássaros que por lá aportam, sempre sob olhar vigilante do vulcão, o portão identitário. As estrelas cruzam o céu, mergulham nas nuvens timidamente; a lua sopra com lábios carnudos para o queixo do Minó di Mama. Que convencido a alma, vaidoso que ganha coragem com o violino, inventam gestos e gestas de cortês para o alvoroço das senhoras. A Miloca está quieta. Os seus olhos brilham na vertente da lua que o Minduca recolhe com desejo.

A bandeirona também é vagabunda. Deambula pelas ruas numa performance contagiante; os textos, os atores e o público harmonizam-se em verve colectiva numa harmonização horizontal. Todos são convocados. Todos proclamados senhores da festa. Todos transportam e transpiram energia. No rufar do tambor, no toque-toque do pilão e na dança-dança geométrica das senhoras. O Osvaldo manco, quedo no seu canto, faz de sofista qual sofisma! Qual etiquetas, qual quê! O homem canta e encanta; faz comício para as gargalhadas dos presentes. De bokarum, canizadi é só amizade. O vulcão é a música; é o público; é o texto.  Na ilha do Fogo, o tempo está colorido; tons vermelhos, verdes, azuis, de berrantes até cega as almas. Os convivas calcorreiam os espaços, de transeuntes anónimos de sorrisos abertos. Os carros voam com baterias de sons, descem do sopé do vulcão.

Enquanto isso, na greta do mar, os barcos sulcam o oceano. Balanceiam ansiosos para novas paragens. No sotavento, o vento é amarrado no lençol. Ventos acumulados e trabalhados para fazerem de batuques e tambores na ilha de Santiago.

Olha Santiago bem perto, de peito largo no seu cavalo. Bate com brio no cavalo e varre o tempo com prenúncios de bem-vindos. Badias tagarelam no pelourinho, de bocas aguçadas cospem paleio; «freguês, não queres nada», «produto barato e de qualidade». A classe média, nacionais e turistas, declina o convite; a moldura do corpo padronizado reprime qualquer diálogo social. (continua) 

09/01/13

«Alguém me arranje emprego. Bom bom.»

Tantos anos a estudar
para acabar
desempregad[a]
Ou num emprego da treta
mal pago
E receber uma gorjeta
que chamam salário
Não tirei o Curso Superior de Otári[a]
não é falta de empenho
Querem que aperte o
cinto mas nem calças tenho
Ainda o mês vai a meio
já eu 'tou aflit[a]
Oh mãe: fazias-me
era ric[a] em vez de bonit[a].

É sexta-feira

Suei a semana inteira
No bolso não trago um tostão
Alguém me arranje emprego
Bom bom bom bom
Já já já já! [...]

(BOSS AC, à minha maneira)


Idade: irreverente! Desde quando era criança, aprendi com a minha mãe que o livro é um amigo de todas as horas. Do meu pai, recebi a força de acreditar que da vida colhemos os nossos próprios frutos. Ele não era um camponês, nem um filósofo. Era um sonhador realista. Infelizmente, já não estão por cá para me meterem uma CUNHA (que dava-me jeito já já já já). Enfim, como sempre, vou ter que ir à luta (ladeira riba e ladeira baixo). À cata da sorte!

Dizem-me que tenho dois defeitos capitais: língua afiada e pé de sabão. E que isso «não é bom» para mulher. Bom, acho que sei como dar um jeito nisso. E então, agora sim, estou disposta a transformar tais defeitos em virtudes. Sonho à distância de um click: um mundo em casa, uma biblioteca em casa e uma oficina em casa. Isso não é domesticidade, é uma ideia de auto-emprego, mas, «no bolso, não trago um tostão. Os bancos só emprestam a quem não precisa.» Por isso, «alguém me arranje emprego, bom bom bom bom, já já já já!»

07/01/13

Vida e Paz


De alma vazia a vida é insípida
Ao som iluminado da verdade
Ambulante corpo afunilado no tempo
Na maçaneta da discórdia torna-se
Imaculado de sabedoria
A casa perfeita do demónio

Vida e paz
Só morre quem nasceu, cresceu e morreu
Se não viveu, não será imortal
Na memória minúscula de seres
Azedos de miséria de córdia
Na luz do papel afagado no silêncio

De alma vazia a vida é insípida
Só morre quem nasceu, cresceu e morreu
Se não viveu, não será imortal

Mar-blues: sodade, oh mar, oh gente…




I.      
       
O mar, para além de ser uma tela gigante, aporta memórias de outros tempos, lugares e sonhos. Traz ainda o sopro sinfónico que atravessa às ancas do tempo, na salutar festa de São João de moças de «rabolas» incandescentes na rosca-rosca com os rapazes da terra. Brios soltos no palavreado regional, no encontrão de sexos na peleja do refeitório pagã. Gestos sortidos e curtidos entram em transe. Mocinhos e mocinhas, de Santo Antão e São Vicente, recriam a tragédia na orgia, no caos de guerra fria. Os corpos se trançam; fermentam-se no pousio do desejo. Os ritmos frenéticos se intensificam em cada rufar do tambor. Trata-se de ritos de passagem. Os corpos disciplinados se indisciplina, quebra a rotina do dia-a-dia. As enxadas encontram a paz nesse dia, já não fere o chão. A brisa do mar sopra de mansinho para as ilhas; esfria os corpos e cristaliza os desejos. A carne é exorcizada com a mudança do tempo. A festa dá lugar ao trabalho. Aos afazeres domésticos. Os desejos da carne são mais secretos. Os corpos dos desejos voam para as suas casas, lugarejos da sua santidade. O sopro do mar, na contra corrente, cruza para outras ilhas. Vai ao Fogo para apagar o vulcão.

A bandeirona também exorciza os maus ares no rufar de tambor. No cotejar sincopados de sons fatigantes, de corpos curvos e trémulos que o grogue fermenta. A brisa do mar traz brio no corpo das ilhas. As várias almas do tempo, no compasso de um caminhar caótico, seguem em transe para vários vales, cutelos e cidades da ilha. O tempo metamorfosea a vida. Sacrifícios dos animais que choram a sua morte, de olhos arregalados que gotejam berros. Facas de golpes e em contragolpes, de corpos caídos no palanque da festa. Os caldeirões fumegantes e cantantes dão azia aos convivas, enquanto esses cheiram e snifam a morfina da fome. Na ilha do Fogo, a romaria começa ordenada com antecedência. Os patronos conspiram os desejos e consumos; arranjam a urbe para o carnaval fora do tempo. Líquidos brotam do vulcão, sacodem as almas no canavial de São Filipe. No sopé do vulcão faz-se os primeiros acordes para uma nova largada. O sentido é cruzar vários pontos das ilhas no salutar momento harmónico de convívios. A bandeira é desenterrada para vencer o céu. Bradar ao céu para dialogar com o sol e a lua. A lua «noba» de corpos de desejos que se hospedam no vulcão. (continua). 

05/01/13

Eu e a loucura de mão dadas


                       Eu e a loucura de mão dadas

                            Eu e a loucura de mão dadas! 
     Numa tarde após a chuva, o ambiente cinzento de névoa, o barulho das trovoadas, e uma luz que aparece de repente, e a loucura continua ... 
    A loucura deixa em mim o poder de voar, de ver o impossível de tocar o intocável, de desvendar os mistérios, o triste dessa felicidade é fazer de mim, o ser que eu não sou. 
    Voltando em mim e a minha tristeza, fico cego de tanto ver e não vejo o que eu quero ver, de tanto crer e não poder tocar, sinto um vazio sem a minha loucura...! 
    O mal de tudo isso é que eu não posso ficar sempre de mão dadas a loucura, a lucidez me traz a imperfeição, faz de mim um prisioneiro da procura sem limite, a resposta de um é a pergunta de outra... 
         Mas porque? Porque ? Pois é, ai vem mais perguntas, 
     Com a loucura eu sei de tudo, o tudo que não é nada, a existência do nada me preocupa porque é dai que vem o tudo. O tudo é a vida que me leva até a morte ou o tudo é a vida que me leva até a loucura. Tudo é abraçar a loucura, viver a vida e ver a morte como um agradecimento. 
     Ainda bem que eu dei a mão a loucura porque se não seria um louco. 
                                 Vamos dar mais uma volta, vamos. 
                                   Eu e a loucura de mãos dadas.

03/01/13

Quando a Alma Chora

- Como vai a vida?
- Não muito bem, hoje em dia em que a alma chora ao pôr do Sol, quando o espírito devia vangloriar-se dos remates de um dia apaixonadamente cansado de fazer o que gosta.
- Como vão as coisas? Lá em casa tudo bem?
- Como pode tudo estar bem quando nem o cansaço tem direito a uma noite de sono tranquila, encostando a cabeça no travesseiro, com a mente maquinando as entranhas de um novo dia?
De portas abertas as ruas nos convidam a sacrificar a coragem e lá seguir caminhando entre vozes que ecoam no nosso ser o medo do que possa acontecer a cada passo que colocamos à nossa frente.
- É, meu amigo! Quando a alma chora por não saber se ainda pertence ao seu corpo, a vida perde o toque brilhante da magia do seu belo que encanta os que te cingem de amor e paz.
É, minha amiga!
A vida por aqui vai sendo ceifada como se fosse nada.
Sim, a alma chora, não por a vida não nos pertencer, mas por ser levada por quem não de direito, divergindo com a ordem natural da criação humana. O propósito da nossa presença, a esperança de um sorriso, coisas que faleceram aos nossos olhos e nós só continuamos respirando, pois vivos não estamos, neste mundo tão negativo, imoral, impaciente, intolerante, egoísta  autoritário, de homens que venderam suas almas ao direito de sofrer, porque no sofrimento alheio se rejubilam e consumam sua miséria nas calçadas onde arrastam seus pés, nos olhares ensopados de raiva, nas palavras emporcalhadas que professam.
Como vai a vida? Qual vida? O que é a vida? Onde a encontro? E se a encontrar, como poderei reconhecê-la?
É, meu amigo! É, minha amiga! Creio que caminhamos como seres inanimados, erradamente motivados, amaldiçoadamente apaixonados, obsessivamente desviados do real caminho da dita vida e quando é assim a alma chora.

02/01/13

Três Estações da Lisboa Hermética:
O Retrato da Cidade; Eu na Caixa e o Outro Inventado


|UM|

 […] A menina Maria Helena já pode abrir a pálpebra e aceitar a luz líquida das Águas Livres; alcançar a varanda e pedir o pão-nosso de cada dia pela injecção da morfina na seringa; penhorar a escada e subir ao quinquagésimo primeiro andar e resgatar os anões da Branca de Neve da gaiola, enquanto o radiologista do tráfico rodoviário dita os erros ortográficos da cartografia da cidade aos varredores de rua. Falta um degrau abaixo do nível do Mar de Carcavelos para que o diafragma capte a baleia submergindo com ajuda duma colher de chá no aquário. Bom dia, senhor Herculano! É notícia nos semanários que os gatos-pingados retiraram-se das rampas dos parques de automóveis e dos telhados à beira do rio — territórios onde os tigres acasalam ovos de perdizes com os marinheiros do Cais de Sodré. Na surdina, nos canteiros da Praça da Alegria, os Erasmus enrolam com os grilos nas unhas da Graça-nocturna. E por cima do ombro do Bairro Alto — originalmente feito a lápis de carvão — a sair da janela, o sono é impensável sem que o sal da electricidade sintonize: o sofá espatifado, o gato preto, o sonho e o poeta. Este sonho ridículo, o gato enganado no sofá e o poeta a beber o fumo de cigarro no escritório da advogacia; são naturalmente a Cidade de Lisboa no Outono de 1910 a inclinar-se [o navio] até a borda para chegar à água. Da rua Augusta à Praça de Comércio, os amantes limpam a correias das bicicletas, laçam cores quentes do arco-íris na gola da camisa e duas doses de doces caseiros nos lábios. No Beco da Amorosa a moça de vestido vermelho usa a língua para acender a vela e transforma as árvores em animal de corrida, carregando no dorso as paixões cinematográficas. Relinchos de éguas no relógio de parede; pontapés atléticos do feto a forçar para sair do estuque podre dos soalhos e Lisboa pulsando com a circulação dos eléctricos a queimar nas veias. A camioneta setecentos e cinquenta e cinco pára a meia distância da Primavera na estação dos cabo-verdianos, com o polegar sustendo os nós cegos da Ponte Vasco da Gama para que não desamarrassem com a queda eminente de chuva no guarda-roupa. Um rasto de pó de estrada esvoaça atrás do navio que devagar enfia-se na barra; e com isto: o estranho cicatriza ao acender do cigarro; ajeita a gabardine e esgota no primeiro bafo de fumo. O forasteiro de cigarro e gabardine, não é lisboeta nem estrangeiro — lúcido louco é a alma de um cão vadio; o cronista das avarias técnicas dos operários dos telecentros farejando pastéis de nata nas arruelas de São Bento. Vagueando pela Santa Apolónia com um chapéu esburacado e a sorrir para o Hércules sisudo que sumiu com a invasão napoleónica dos gafanhotos do império egípcio decorria o século dezanove. Lisboa toma forma de um copo com água: a menina com a cabeça nos joelhos, ao tocar os lábios no rebordo da chávena pressente a vibração dos transeuntes duma ponta a outra de Martim Moniz — e a gota de água é o mundo agarrado à roldana a encerrar a encenação quotidiana ao desligar a televisão. Um cão brinca ali longe na esquina com as folhas secas evoca de quando a gente o tem na mão; a bailarina em movimento de peixe carregado nos ombros os guardadores de rebanho e a fluvial entrada do Tejo pela greta da porta a mastigar o próprio rio pela orelha. Zapping ininterrupto de citadinos: dando comida japonesa aos pombos; cortando maçãs ao meio para dar partida aos que correm atrasados para os transportes públicos; a limpar bancos da praça com o frio dos mendigos a urinar para o chão num gesto de marcação da comarca; a descerem do autocarro sem tirar o olho do navio e a acariciarem os candeeiros com os fósforos do Verão que trazem os turistas para sétimo piso da colina do Castelo de São Jorge. No cronoscópio dos sóis as pequenas transparências da água na tigela a diluírem os itinerários dos pássaros que amadurecem nas árvores das alamedas. […]